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/ Se um viajante numa Espanha de Lorca
 
 

 

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ESPIOES Y AMIGOS

Antonio Junior
antonio_junior2@yahoo.com
http://www.elgitano.blig.ig.com.br
Bolonha, Andalucía, España

 

Tive a sorte de conhecer em minha vida algumas figuras notáveis, dessas que se distinguem dos que os rodeiam pelo desenvolvimento do espírito, mostrando-se ao mesmo tempo parceiras da fauna e da flora, generosas e tolerantes com a debilidade do próximo. Ainda menino, admirava um velho senhor, "Sêo" Marinho, que aparecia subitamente na nossa casa e rezava toda a família, protegendo-nos de enfermidades, do mau olhado e de outras energias negativas. Inclusive o meu pai, homem indiferente a religiosidade, sentava numa cadeira e fechava os olhos, enquanto o "notável" acariciava o seu corpo com folhas de guiné, acompanhadas por um cântico caboclo e incompreensível. Sempre descalço, ao intuir alguma impureza no fiel, receitava banhos de certas folhas, flores e ervas aromáticas. Nunca soube a idade daquele homem de expressão cálida que durante anos foi o nosso "médico de alma", lutando espiritualmente contra nossas inúmeras dificuldades. Me parecia velhíssimo. Sei que um dia desapareceu sem deixar pistas. Outras pessoas foram significativas em minha formação, resultando encontros inquietantes. A mais recente delas chama-se Camiño Lasso. É uma famosa ex-modelo espanhola, agora retirada no Huerto del Cañuelo, em Bolonha, no território andaluz, ao lado de uma centenária cidade romana, Baello Claudia. A dama é alta, magra, suave e sofrida. Passou por poucas e boas. Depois de catorze anos com curtas temporadas nas terras adquiridas e onde hoje vive, mudou-se para lá há quatro anos. Nos dias de sol, senta no muro de pedra, e durante horas olha o bosque de pinhos e o infinito mar esmeralda, como se o espetáculo da vida estivesse escrito nas linhas formadas por ondas e folhas (e não está, meu caro leitor?). Ela escuta, sem que a sombra de um gesto deforme os traços de seu belo rosto. Mantém os olhos fixos na dança dos ventos. A branca casa mediterrânea está no alto da montanha, ao lado de duas árvores hipnotizantes: o frondoso ficus australis e a centenária amoreira com tronco naturalmente em forma de dragão. "Tudo aqui é sentimento", ela diz. Ladeando uma enorme pedra de formas geométricas - um dedo de Deus quadrado -, chega-se ao vale sagrado, o Huerto de Isadora. Cercada por rochas, a planície bucólica é um santuário de silêncios, local de rituais dos adoradores da deusa Isis. Há um lago raso com papiros e lótus, cantos de rãs; árvores frutíferas e flores. Da Ásia, a magnólia branca e o Jinko Biloba, uma das mais antigas árvores do planeta, jurássica, a única espécie sobrevivente as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki. O chá de suas folhas rejuvenesce os neurônios. O vale é uma porta para outra dimensão, rumo ao desconhecido. No jardim, margaridas do campo formam a frase "Buscando Paz". Três dias após a cerimônia fúnebre de sua filha Isadora, que teve as cinzas lançadas ao vento, ao escavar um canto do vale, Camiño encontrou um frasco romano de cristal, de mais de dois mil anos. O presente tornou-se um amuleto. Camiño Lasso toca o meu coração, assim como outras mulheres: mama Lourdes, a poeta Hilda Hilst, a assistente social Mayte Sorribas - que vive na selva mexicana -, a escultora Pepa Armentès, a potiguar Ana Cláudia Bezerra ou as baianas Zélia Uchôa, Fahda Juhè e Vera Rabelo. São mulheres notáveis, espontâneas, generosas, sábias em suas respectivas escolhas. No Huerto de Isadora me sinto espião, um espião amigo, sem inveja ou curiosidade mórbida. Hoje pela manha, enquanto fotógrafos e jornalistas do Harper's Bazar Magazine documentavam a beleza do lugar, eu descobria folhas, sussurros, formas, manchas, perfumes, raízes, insetos. Ser espião da formosura da vida é um tônico para o corpo e o espírito. Ando lendo sobre uma espia no sentido mais exato da palavra, a russa Olga Tchékov (1897-1980), sobrinha do autor de "A Gaivota". Ela levou uma vida fascinante na Alemanha nazista como estrela da corte do Führer. Belíssima, fez furor no teatro e no cinema, nos estúdios da UFA (Universum-Film AG), sob a direção de gênios como Murnau, Lubitsch e Fritz Lang. Fugiu da Rússia em 1921, rodando em Paris "Um Chapéu de Palha da Itália" (1926), de René Clair, e em 1930, terminou contratada pela Universal para filmar em Hollywood. O forte sotaque russo-alemao não era apropriado para o recente cinema sonoro, e voltando a Alemanha é nomeada Staatschauspielerin (Atriz do Estado). Aproveitou a condição de celebridade e a admiração de Hitler e Goebbels, tornando-se informante fundamental para a sua pátria. Nunca os nazistas souberam de sua vida secreta como espia e ela continuou filmando até 1974. Morreu em 1980, aos 83 anos. Antes do último suspiro, Olga Tchékov bebeu uma taça de champanhe e disse: "A vida é bela". Uma figura notável, sem dúvida. Como poucas neste mundo marcado pelo medo, vulgaridade, maus costumes e falta de vergonha na cara.

 

 



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