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/ Se um viajante numa Espanha de Lorca
 
 

 

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IDÉIA FIXA

Antonio Junior
antonio_junior2@yahoo.com
http://www.elgitano.blig.ig.com.br
Cádiz, España

 

Depois de andar uma hora pela praia semi-deserta, detenho os passos em um riacho que desemboca no mar, e olho a ilha de Las Palomas, que já foi um importante santuário fenício, e as ruínas de uma ponte romana. Estou parado entre o mar e o rio, meu caro leitor, e a história navega em minha mente neste importante Estreito de Gibraltar. Na cabeça, a mítica e perdida Atlântida como idéia fixa. Platao dizia que estava localizada exatamente aquí, depois das colunas de Hércules (os monte Calpe e Abila), com seus canais, fachadas de prata e tetos de ouro, templos, palácios, teatros e basílicas. Uma colossal estátua representando Poseidón sobre uma carruagem de seis cavalos alados reinava e os atlantes eram ricos e sábios, porém termiram corrompendo-se e perderam sua virtude, terminando por provocar a fúria dos deuses e a cólera dos mares. Em 1637, Francis Bacon escrevou “Nova Atlântida”, onde um governo culto administrava a felicidade absoluta. Robert Graves pensava que a Atlântida correspondia a uma zona afundada próxima a antiga Cartago, pertinho de Túnez. John Dee, o astrólogo da rainha Elizabeth I de Inglaterra, afirmava que estava nas Índias Ocidentais. O explorador P. H. Fawcett, um coronel obsecado por encontrar a cidade mágica no Brasil, terminou desaparecido nas selvas amazônicas. Em cada época, o mito de Atlândida ressucita o imaginário mundial de cientistas e aventureiros. Atualmente, um geólogo francês e um físico alemao, graças as fotos obtidas pelo satélite Eurosat, garantem terem localizado-a na chamada Marisma de Hinojos, no Parque Nacional de Doñana, ou seja, na Andaluzia. Será verdade ou mais um truque de um desses loucos pela fama? Observo o mar azul e sereno em busca de um sinal. Estou completamente sozinho na zona de antigas e importantes cidades romanas: Mellaria, Baelo Claudia, Julia Ioza e Baesippo. Nu, deito-me na areia. Minutos antes, acabara de ler uma obra do russo G. I. Gurdjieff. Era uma poderosa personalidade humana, reforçada por elevada espiritualidade, falava 18 idiomas e o seu grupo dos “Buscadores da Verdade” fundou o Instituto para o Desenvolvimento Harmônico do Homem, sendo visitado por escritores, pintores, compositores, médicos e atores. Ele procurava abrir a porta do “conhecimento”, pregando a idéia de um Deus único para todas as raças e credos, e o encontro com o nosso mundo interior e exterior, numa revisao radical de valores, além de resgatar danças e movimentos de cerimônias sagradas. A escritora inglesa Katharine Mansfield pouco antes de morrer escreveu sobre o instituto: “Prieuré é um velho castelo muito bonito, cercado por um parque admirável...Cuida-se dos animais, trabalha-se no jardim, faz-se música...A idéia é despertar o oculto, em vez de falar sobre ele”. Gurdjieff nasceu em 1866 e morreu em 1949, fez várias viagens a Ásia Central e seus livros foram publicados postumamente. Neste que acabo de ler, marquei com caneta (um dos meus vícios) algumas informaçoes que me pareceram inquietantes: os yezidas, chamados de Adoradores do Diabo, e que vivem perto do Ararat; os gormaj, espíritos malignos que entram nos corpos de homens que acabam de morrer; a célebre escola esotérica Sarmung, fundada em Babilônia 2.500 anos antes do nascimento de Cristo; o místico príncipe russo Yuri Liubovedsky; Oxus, adorado como um deus por certos povos da Ásia Central; e as experiências musicais reveladoras do autor. Num todo, Gurdjieff me pareceu charlatao, de métodos duvidosos, embora de uma inteligência e vivência raras. Ele nunca responde, como se propoe, por que estamos aqui, o que queremos ou que força obedecemos. Sua significância está em propagar a profunda filosofia oriental no Ocidente. Mergulho nas águas gélidas, voltando a pensar no continente nunca encontrado. É o dia de Sao Joao e o sol cintilante ilumina a praia de dezenas de quilômetros. O que mais admiro nas praias européias é que nao há futebol, frescobol, música, farofeiros, vendedores ambulantes ou gente exibindo o corpo - guapos e derrubados tiram a roupa com a mesma naturalidade e sem chamar a atençao. Fecho os olhos e ouço a cançao das ondas. Sao 22 horas e ainda a claridade é reveladora, logo as estrelas surgirao no céu sem nenhuma nuvem. Soube que somente na nossa galáxia existem dez mil milhoes de estrelas e no Universo pode-se contar dez mil milhoes de galáxias. Somos apenas bactérias querendo colonizar o Planeta Vermelho e liquidarmos-nos uns aos outros. Como provavelmente aconteceu com os habitantes da Atlântida. Deito-me outra vez na areia à espera de estrelas: sou um atlante, sou um cavalo-marinho, sou um baiano afortunado. Viva Sao Joao, meu caro e paciente leitor.

 

 



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