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/ Se um viajante numa Espanha de Lorca
 
 

 

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DA ORIENTAÇAO SEXUAL DOS MARROQUINOS

Antonio Junior
antonio_junior2@yahoo.com
http://www.elgitano.blig.ig.com.br
Tánger, Marruecos

 

Recentemente voltei a Tânger, pela primeira vez em mais de três anos, desde que fui convidado por ingleses a uma festa nos jardins de um luxuoso hotel, conhecendo nessa noite o escritor venezuelano Rodrigo Rey Rosa. Essa cidade branca lembra-me o centro antigo de Salvador, nas imediações da rua Chile. É irresistível, mística, suja e caótica. Muitas mulheres usam burka, o vestuário milenar que esconde as formas do corpo, revelando apenas olhos submissos; a população masculina anda de mãos dadas, bebe nas cafeterias um açucarado chá de hortelã e conversa altíssimo, e ao mesmo tempo. O reino do Marrocos, o país dos sentidos, faz parte do meu imaginário infantil, pois menino vi inúmeras vezes na tevê, “Casablanca”, o filme favorito de minha mãe. Ao contrário de outros cinéfilos, a obra de Curtiz não me interessa o suficiente, me parecendo confusa e o romantismo pouco envolvente. E como toda ilusão não é eterna, ao visitar Casablanca, terminei revelando a minha mãe suas características portuária e industrial, ou seja, uma cidade feia. Aos vinte e poucos anos, tomei conhecimento da literatura de Paul Bowles, que vivia no Marrocos desde o final da década de 40. Procurei-o pela primeira vez três anos antes de sua morte, e como o autor de “O Céu que nos Protege” se encontrava internado numa clínica espanhola e discuti com o meu companheiro de viagem, um alemão com péssima impressão da África do Norte, deixei Tânger no mesmo dia da chegada, disposto a aventurar-me por Marrakesch e o Saara. Era final de outono. O trem dos tempos da colonização francesa, que conserva poucos resquícios do passado elegante, tomou o seu rumo levando gordas senhoras carregando cestos de especiarias, fiscais fardados, crianças vendendo babuchas e o movimento contínuo de passageiros ditos “exóticos”. Na cabeça, informações de mulheres estrangeiras desaparecidas, corrupção policial, fanatismo religioso. Clichês, corretos ou não, divulgados para turistas. Sozinho numa cabine, fechei os olhos, relaxando ao concentrar-me em oásis, medinas (antigos centros comerciais e residenciais), palácios, souks (mercados), mesquitas, mellahs (bairros judeus) e na força da história de trinta séculos de cultura, numa encruzilhada de civilizações romana, berbere e árabe. Ao abri-los, deparei-me com um atraente nativo de uns 30 anos, de olhos esverdeados maliciosos fixos em mim. Incomodado, tirei o livro da mochila e procurei lê-lo. “Brasileiro? Ah, da terra do futebol!”, exclamou em castelhano, abrindo largo sorriso de dentes graúdos e brancos. Durante intermináveis minutos falou sem parar: o trabalho como garçom em Madri, a volta para as bodas do primo, a beleza da terra natal. “Está convidado para passar uns dias comigo. Vou hospedá-lo com um parente em frente ao mar. A celebração do casamento dura uns três dias. As mulheres numa casa, os homens noutra. Muitos cânticos, dança e haxixe”, repetiu numa ladainha hipnotizante. “Não será possível. Amigos me esperam em Marrakesch e sou estudante, não tenho dinheiro”, menti pouco convincente. Não se deu por vencido, mostrando fotos de paisagens fascinantes. “É um povoado precioso. Artistas passam temporadas lá, pintando e escrevendo”, insistiu. “Não gosto de arte, o meu negócio é a carreira militar”, exagerei, tentando intimidá-lo, e o personagem de fábula de Malba Tahan não me ouviu, verbalizando como papagaio desorientado. De repente, o trem estacionou. Aconteceu rápido: ele segurou a minha mochila de couro, tomei-a de volta, levantando-me, e a grande mão do suposto vigarista levou-me até a saída. Sem agressão, mas de um impulso ágil e dominador. O comboio partiu, restando nós dois numa estação em ruínas, em pleno deserto; um cansado camelo coberto de moscas largado no chão e um táxi negro aos pedaços. Acordando do transe, procurei a bilheteria, sendo informado do próximo trem na manha seguinte, às sete horas. Não soube como agir, meu caro leitor, me senti no fim do mundo, marcado para morrer. O estranho, dentro do automóvel, convidou-me para entrar, não aceitei, seguindo a seta apontando o povoado. O táxi ao meu lado, e o homem sem nome continuando o monólogo. Ao avistar o lugarejo, estremeci. O único mar visível era de areia e poeira, casas pobres, sol ardente. Nenhum hotel, posto de turismo ou outra salvação aparente. Os poucos habitantes olhavam-me indiferentes ou não entendiam as súplicas. O marroquino me seguia como sombra assustadora e, fatigado, cansado da tensão permanente, deixei-me levar, percorrendo ruelas labirínticas. No apartamento inacabado, apresentou-me a um garoto incrédulo, que mostrou o quarto destinado ao cativeiro. O primeiro andar bastante alto, não permitia saltar da janela. Optando pela inocência, aleguei novamente não possuir dinheiro, enfatizando a condição de cidadão de um país em dificuldades econômicas. Temia o roubo do passaporte, cartões de crédito e máquina fotográfica, camuflados no fundo da bolsa. Duelamos com palavras durante uns quinze minutos, e finalmente deu-me trégua, pontuando que depois resolveríamos a situação, era hora do “hamman”. Entramos numa sauna acolhedora e primitiva, aborratada de machos nus de variadas idades. Brincavam, barulhentos, fumando kif num pequeno salão e um ou outro cochichou, apontando-me com zombaria. Donzela lançada aos lobos, lembrei-me de Lawrence da Arábia estuprado por mouros. O acompanhante desnudou-se da chilaba, exibindo cicatrizes, como riscos de navalha, no corpo moreno e forte. “Passei por dificuldades”, confessou, sério, deslizando os dedos grossos por um corte na coxa até bem próximo do pau. “Tire a roupa e venha para o banho. Está nervoso, precisa de uma massagem”, ordenou. Lentamente desatei os tênis, avaliando a situação, e notei a porta central abrir-se para um grupo. O meu “carrasco”, deitado embaixo de um jorro d’água quente vindo de uma fonte de pedra, diluía-se pouco a pouco na fumaça. Aproveitei a brecha, correndo como um louco e sem direção exata. Anoiteceu, o silêncio imperava e eu, alucinado, esbarrei num jardim de palmeiras. Escondi-me entre o grosso tronco de uma delas e um muro baixo. Não adormeci, encolhido, alerta, em pânico. Ao amanhecer parti para a estação, certo de encontrar o vilão, mas nada mais além do camelo, do sonolento taxista e do bilheteiro. Aliviado, subi no trem para Marrakesch. Foi minha única aventura perigosa no Marrocos. Não sei avaliar quais seriam os planos do “seqüestrador”, recordo a voz educada, cúmplice e firme dizendo “Seremos bons amigos para sempre”. Voltei a Tânger no ano seguinte para entrevistar Paul Bowles, passando uma tarde inteira com o escritor. Sentados num café do Petit Socco, contou-me do amor incondicional pelo país e seus costumes. Terminei percebendo nessas visitas, a ambígua vida marroquina, atraindo gays célebres como Genet, Burroughs, Truman Capote, Allen Ginsberg ou Tennessee Williams, animados com a mistura de diversão, drogas, sexo e inspiração às portas do Estreito de Gibratar. Não há uma condição homossexual típica, como no Ocidente, mas é um universo masculino, e crendo na teoria da carne falando mais alto em concentrações excessivas de pessoas do mesmo sexo (leia-se internatos, mosteiros, esportes, exército etc.), tudo pode acontecer. O islamismo é a religião oficial e o dia ritmado por cinco chamados para a oração. É o “muezzin” que os anuncia por alto-falantes, mas os fiéis desafiam as leis do profeta Maomé, flertando descaradamente outros homens. Considerando suas fêmeas “sagradas”, intocáveis antes do matrimônio, os tipos bonitos e algo selvagens se dispõem a superar a miséria constrangedora e aliviar a virilidade. Dessa última vez em Tânger, vagando dois dias e uma noite, conheci uma inteligente bicha francesa, de Provence, e uma idosa inglesa proprietária de pousada doméstica sofisticada, Eric e Maggie. Vivem há anos na cidade como personagens de Bowles, freqüentado recepções em embaixadas e festas oferecidas por ricos europeus ou norte-americanos. Pode-se viver com pouco nesse país. Os marroquinos, usados como criados, objetos sexuais ou traficantes de drogas, sofrem perpétua colonização. Vejo-os como um povo corajoso e sem saída, lutando pela sobrevivência num momento global injusto e mesquinho. O preconceito e o abuso de poder dos estrangeiros transformam-nos em terroristas, ladroes baratos, comerciantes sem escrúpulos, prostitutos. Se toda exploração tem o seu fim, para o melhor ou o pior, é só uma questão de tempo, sensibilidade, lucidez ou revolta.

 

 



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