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/ Se um viajante numa Espanha de Lorca
 
 

 

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QUE ALEGRIA DE VIVER!

Antonio Junior
antonio_junior2@yahoo.com
http://www.elgitano.blig.ig.com.br
Tarifa, Cádiz, España

 

Sou de família pouco dada à arte culinária. Os homens nao chegam no fogao nem para fazer café; as mulheres foram sao cozinheiras básicas, nada originais, preparando com dedicaçao pratos rápidos e caseiros com produtos da temporada, e renovando o menú a base de ingredientes ensinados de mae para filha. Por exemplo, Nininha, minha adorável avó materna, fazia um simples bife com sabor único que recordo até hoje, vinte anos passados, mas nao amava temperos, molhos, carnes, verduras ou frutos do mar como “cozinheiros de coraçao”. Nada cozinhei até a idade adulta, brigando ridiculamente com ovos em caçarola durante muito tempo, e na década passada, vivendo em Madri com cinco pessoas de quatro nacionalidades diferentes, inexperiente, passando dificuldades ecônomicas, tornei-me “cozinheiro” da noite para o dia. Em busca de reportagens com brasileiros famosos que visitavam a capital espanhola, batia ponto na Embaixada do Brasil, pedindo a Norma, funcionária do Itamaraty de intermináveis décadas, que facilitasse conversas com patrícios, ajudando assim um jornalista free-lancer sem contatos. O máximo conseguido: entrevistar a bela pintora Solange Costa, mae de Teresa Collor, que me recebeu num apartamento fantástico e é autora de quadros ruins; e Lícide da Matta, ex-prefeita de Salvador, ao receber um prêmio humanitário das maos da Rainha Sofia. Flávio, estudante de psicologia goiano, vizinho de quarto, veio com a louca idéia que nos tiraria do aperto financeiro: “Somos cozinheiros. Vamos responder a este anúncio”. O anúncio publicado no El País procurava cozinheiros de outros países para durante dois dias na semana criar e executar menu “exótico” - com quatro pratos de entrada, quatro principais e duas sobremesas -, pagando muito bem. “Nao sei cozinhar, Flávio, e você muito menos”, rebati, tentando evitar a irresponsabilidade. “O chefao nao precisa saber desse detalhe”. Marcamos a entrevista, o proprietário aprovou o duplo currículo, e dentro de três dias seria a estréia. Enlouquecemos, ligando para as nossas maes pedindo receitas, consultando livros e revistas, estudando cada prato teoricamente, pois nao havia dinheiro para gastos. A lista de compras passada ao gordo proprietário, poderia ser tratada como verdadeiro tesouro para brasucas no exterior: feijao preto, dendê, leite de côco, mandioca, abacaxis, mangas, pimenta malagueta, cebola roxa. Iniciamos o trabalho às oito da manha, consultando discretamente as receitas selecionadas e ouvindo grunidos de reclamaçoes dos ajudantes portugueses, que alegavam a impossibilidade de fazer um bom arroz da nossa forma, entre outras coisas. Às onze, dezenas de operários de diversas nacionalidades - inclusive brasileiros -, chegaram ao restaurante popular, ocupando todas as mesas. No dia seguinte, o proprietário dando como desculpa o alto custo do nosso cardápio, que segundo ele ultrapassava o orçamento previsto, nao compensando, pagou-nos o prometido e desejou melhor sorte noutro lugar. Nunca soubemos se o intento agradou ou provocou revolta, porém temos uma única pista positiva: os pratos que voltaram vazios. Depois dessa farsa digna das comédias de Woody Allen, começei a me interessar pela cozinha baiana, aprendendo alguns truques para facilitar a preparaçao e usando ingredientes alternativos, e no ano de 1999, em Barcelona, me lançei publicamente como cozinheiro, chamando quinzenalmente amigos para provar comidas com nomes de escritores brasileiros: “Tabule Jorge Medauar”, “Peixe assado com batatas e romero Aninha Franco”, “Vatapá Gregório de Mattos” etc. Neste verao terrivelmente quente no balneário andaluz de Tarifa, convidaram-me para cozinhar nos finais de semana no La Sacrístia, hotel-restaurante sofisticado frequentado por milionários, artistas, nobres e turistas enlouquecidos. Topei a parada, apostando na renovaçao como alegria de viver, atirando-me no desconhecido de coraçao aberto e com certa experiência. No primeiro jantar, tivemos como degustadores uma condessa vasca, um príncipe hindu, uma apresentadora de televisao, alguns jornalistas do Harper’s Bazar Magazine e a rica brasileira Penny Shorto, que vive em Marbella. Puta responsalidade que nao me intimidou. Na cozinha, entre ervas, azeites, peixes frescos e intermináveis panelas, divirto-me, intenso como a Babette de Isak Dinesen. Esta semana fiz gazpacho e e frango ao forno com limao e gengibre esgotou-se num piscar de olhos. Antes de começar a cozinhar na minha existência basicamente nômada, já me sentia atraído pelas histórias que falam de comida, melhor dizendo, pelas histórias em que os personagens páram para comer e passam um tempo na cozinha ou reunidos em torno de uma mesa. A comida realça a realidade da ficçao, sua simples mençao humaniza uma história. Como esquecer os magníficos banquetes das novelas de Balzac, os frutos secos e raízes comidos pelo monstro Frankenstein, a compota de anêmona preparada pelo Capitao Nemo ou o “pao, arroz, três queijos holandeses, cinco peças de carne seca de cabra e milho” que Robinson Crusoé resgata de um naufrágio? Quase todos os escritores, em algum momento da narrativa, mencionam os alimentos que comem seus protagonistas, embora muitas vezes seja de forma apressada. Colette, Jorge Amado e Georges Simenon nos deixaram receitas em suas novelas que dao água na boca. Don Quixote come ovos, pimentoes picados e bacon todos os sábados; Kim, de Rudyard Kipling, curry com verduras; e Sherlock Holmes, uma torta de patê de foie gras. Gosto de me identificar com os livros que estou lendo, transformar-me de alguma maneira no personagem cuja vida seguimos nas páginas. Em Paris, li todo um capítulo sobre Quasímodo numa das torres da Notre Dame; folheava em praças e parques londrinos “Mrs. Dalloway”, de Virgínia Woolf. Claro que é difícil empreender as mesmas viagens de Gulliver, as aventuras de Simbad ou apaixonar-se perdidamente como Anna Karenina, porém nao há nenhuma dificuldade em provar o que eles comem. E assim, cozinhando, me aproximo ainda mais dos livros. Nesse momento, ao escrever “Las Cosas de Gitano Duran Poco”, persigo receitas e cardápios de restaurantes para elaborar pratos para dois ou três personagens. No bosque La Selva, o imigrante Lubiao e o cigano José Navarra comem sanduíches de pimentoes verdes assados, jamón serrano, cogumelos e morcilla, uma linguiça de sangue de porco. Longe de qualquer futilidade, toda comida é em essência uma prova de nossa humanidade. Sua elaboraçao, tendo como justificativa o paladar e a estética, pode levar-nos com sorte a manjares imaginativos e audazes. É o que venho tentando fazer nos últimos finais de semana, seguindo radiante pela trilha de dias serenos e novas descobertas para uma melhor qualidade de vida. Nao quer provar a minha salada de polvo, meu caro leitor? Ou prefere peito de peru ao abacaxi?

 

 



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