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O SEXO DOS ANJOS

Antonio Junior
antonio_junior2@yahoo.com
http://www.elgitano.blig.ig.com.br
Londres, Reino Unido

 

Nunca deitei com parócos. A devassidao carnal nao chega a tanto. A experiência mais próxima, se pode chamar-se experiência, aos treze anos, resultou de simples convite do astuto vizinho pouco mais velho. Tímido, disposto a qualquer novidade que me libertasse da tirana adolescência solitária, de livros e filmes na tevê, topei ir a uma festa de “embalo” sem avisar meus pais. Durante vários dias, o conhecido repetiu sem detalhes: “Será uma loucura!”. Nao conseguia ter idéia concreta da tal “loucura”, mas pouco me importava o gênero do “objeto desejado”, queria botar o meu bloco na rua. Ao chegar a residência destinada à festa, trajado como comportado garotinho-classe-média-alta, caiam as primeiras sombras do final da tarde de sábado. A porta abriu-se pela mao esquerda de um cura. Eu o reconheci: era o chefe espiritual da paróquia frequentada por minha avó paterna. Sorrindo maliciosamente, equilibrava na mesma mao esquerda um copo de líquido vermelho que nao identifiquei, pois desconhecia bebidas, apenas experimentara alguns vinhos baratos, Sangue de Boi, Capelinha, essas coisas que minam a cabeça no dia seguinte. Seguimos para o grande e belo pátio banhado pelo entardecer, e inesperadamente encontrei-me entre uma dezena de meninos de idade próxima a minha, talvez um pouco mais novos ou um pouco mais velhos. Brincavam pelados, entrando e saindo na piscina de plástico azul-céu. Indiferente a algazarra, um pastor alemao gordo, de olhos abertos, acomodava-se no tapete puído. Talvez desprezasse o ridículo geral. Quatro homens adultos conversavam ao lado da pequena geladeira, tomando cervejas. Ouvindo Angela Rô-Rô em tom suave, aceitei o guaraná Antártica, sentando-me na cadeira rococó, de ferro, como num trono, folheando sem graça a revista de fofocas com o ator Lauro Corona na capa. O vizinho arrancou totalmente a roupa, correndo para a água. Molhado, chamou-me. Nada respondi, dei meia volta e regressei para os braços familiares, assintindo “Água Viva” com mama e os quatro irmaos, enquanto papai lia O Globo. Nunca conversei com o vizinho, ou com quem quer que seja, sobre o ordinário assunto e poucos meses depois, na mata, preparando armadilhas para pássaros, ele disse-me: “O seminário de Ilhéus fechou as portas, expulsando seus dezoito seminaristas. Eles faziam verdadeiras orgias nos finais de semana. Estive lá duas vezes. Jóia...Sempre voltava carregado de tanto beber cuba-libre”. Horas atrás, no Hyde Park de Londres, encontrei um querido amigo que nao via há seis anos. Em determinado momento conversamos sobre o mais recente filme de Almodóvar, “La Mala Educación”. Encantado com a audácia do diretor espanhol, assistiu a obra três vezes; eu, mesmo ressaltando certas qualidades, insisti em afirmar que nao me provocou emoçao. Tem como virtudes ser superior ao chato “Fale com Ela”, contar com carismática participaçao de Javier Câmara e uma ou outra boa cena da infância do protagonista no internato católico. O filme levou o divertido e frágil amigo a recordar férias em Roma no ano passado, garantindo ser um prato cheio para crônica ou conto. Hospedou-se no primeiro andar de pousada centenária, e da sacada via a lateral de explêndida igreja, formoso pomar e um sobrado de pedra. O quarto ficava em frente a uma das grandes janelas do sobrado, também no primeiro andar. Fumando Golden Virginia e admirando a paisagem, enxergou o moreno de olhos verdes levantando-se de cueca, lavando o rosto, escovando os dentes, orando e, por fim, vestindo a negra batina. Completamente vestido, inclusive com a Bíblia presa debaixo do braço, o padre viu-o, nao demonstrando qualquer reaçao aparente. Olharam-se por segundos. Nos dias seguintes estudou os regulares hábitos do religioso, sabendo com exatidao a hora do despertar, da oraçao, do ritual cotidiano. Como representaçao cômica muda, continuaram contemplando-se um ao outro, sérios, no instante final. Na segunda semana repetiu no próprio quarto e a mesma hora, os movimentos habilmente estudados do outro, só que nu, numa mímica perfecionista ao vestir a imaginária batina, e o guia gay Spartacus como bíblia. Miravam-se, e o rosto do italiano, quadrado e atraente como o de Gianni Garko, sem expressao, nao movia um músculo. Procurou-o na paróquia, atuando no confessionário como inocente perturbado pelo desejo: confessou sobre a janela indiscreta, sobre o prazer de ver despertar o “desconhecido” sem nome. Finalizado o curto silêncio, ouviu a voz cálida, sem rosto, perguntar: “O que veste todos os dias esse ser que admira?”. “É um padre”, respondeu sem vacilar. “Os padres sao como os anjos, nao possuem sexo”. “Vivendo e aprendendo”, ironizou o pícaro amigo. “Me chamo Paolo. Padre Paolo. Reze pela salvaçao dos pecadores. Reze o que tiver vontade e quantas vezes acredite ser necessário”. Calou-se, nada mais disse, e tampouco saiu do confessionário. Na pousada, o jovem apaixonado elaborou estratégias fantasiosas, e nos dias seguintes, mesmo sofrendo com a janela mágica fechada, continuou a imitaçao, desta vez sem a matriz. Faltando poucas horas para partir de volta a Londres, enquanto arrumava malas, a janela fetiche abriu-se em silêncio. O homem de Deus, clone de Sao Sebastiao flechado, nu e de olhos fechados, masturbava-se tomado pela luxúria e dor. Perplexo, acompanhou a exibiçao inusitada como quem sonha, nao conseguindo mover nenhuma parte do corpo. Ao perceber o gozo, despertou do transe, abriu rápido a porta do quarto, desceu as escadas de madeira, atravessou a rua deserta e bateu com a argola de aço contra a alta e potente porta do sobrado. Repetiu o toque rígido muitas vezes. Chamou-o. A porta continuou fechada no seu segredo, e assim termina o ousado relato. O celibato, como está cansado de saber, meu caro leitor, é tema polêmico que desperta interesse em vários escritores e jornalistas. Eça de Queiróz, em “O Crime do Padre Amaro”, é um dos que aborda sensivelmente a questao. Por três vezes escrevi sobre ela: na novela policial “O Coraçao Deserto”; na peça teatral “Amásia”; e também na crônica “Os Pecados de Todos Nós”, rejeitada silenciosamente por algumas publicaçoes, ao contrário de todas as outras da série “Se um Viajante Numa Espanha de Lorca”. Resignado, aceitei o silêncio geral em torno da crônica punida pela caretice. O que poderia fazer? Escrever nova crônica falando de padres versus sexo. Porém, deixo o aviso: os “católicos servos de Deus” nao tomam os meus dias e noites, nao sao obsessao ou tara. Para ir mais longe, considero-os criaturas aborrecidas, me identifico mais com rezadores, pais-de-santo, budistas, profetas, alquimistas, templários, xamas, hari-krishnas, sei lá. Sou do tipo que medita em voz alta com oraçoes de Saint German, mantras budistas, parábolas sufis e salmos bíblicos, frequentando igrejas por curiosidade arquitetônica ou histórica. Essa é outra história. Fica para a próxima, meu paciente leitor.

 

 



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