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ACONTECEU EM VÊNUS

Antonio Junior
antonio_junior2@yahoo.com
http://www.elgitano.blig.ig.com.br
Pella, Macedonia

 

Este é um tempo de medíocres. Optamos por uma máxima nao escrita, a que diz que tudo já foi feito e qualquer tentativa de algo novo é, portanto, inútil. A Terra continua sendo explorada até seus confins, o espaço exterior está fora do nosso alcance (a nao ser que paguemos a passagem) e o oceano profundo nao vale a pena, tampouco o infinito Universo: para que cansar-se, existindo o Discovery Channel? O capitalismo é péssimo, porém é o que se vende para todos. Pobres haverá sempre, como disse Cristo, embora nao falasse para oferecer uma desculpa. Sair às ruas nao é recomendável nesta era de terrorismo e violência urbana. Por exemplo, a troca constante de tiros entre policiais e traficantes, nos morros do Rio de Janeiro, é assustadora. Para evitar esse tipo de infortúnio existe Internet. Aquele que anseie alguma forma de experiência limite, que se inscreva em um reality show. E os artistas, que sejam fotografados e comentados entre as sobras dos grandes do passado. Nenhum escultor superará Michelangelo. Nenhuma atriz de cinema repitirá a luminosidade de Marlene Dietrich. Nenhum brasileiro escreverá um romance melhor que “Grande Sertao: Veredas”. Porém, claro, existem possibilidades formosas de momentos mágicos, em que o mundo e as pessoas parecem sensatos, criativos e até solidários. O verao europeu, ou melhor, qualquer espécie de férias em todos os lugares, é propício para a felicidade. É revigorante ver rostos belos de diversos países em um mesmo espaço. Parece que Dionísio deixou o exílio e faz a festa acompanhado por um cortejo de Sátiros, Silenos e Bacantes. Os estrangeiros nunca adivinham que sou brasileiro, sempre acham que sou árabe ou cubano, como se fossem a mesma coisa. Em algumas situaçoes sinto-me exótico como a Sofia Loren em Hollywood, mesmo nao tendo os seus olhos verdes. Visto batas brancas, verdes e violetas; pinto os olhos de henna como os gregos ou os mouros, uso brincos ciganos de prata e converso em outros idiomas sem evitar o sotaque baiano. Estou em Pella, ao norte da Grécia, escrevendo na cabine de uma furgoneta azul-turquesa chamada Vênus. Sam, o meu amigo ruivo neo-zelandez, prepara a tortilla numa churrasqueira ao lado do jardim de oliveiras. Ele nasceu numa fazenda de gado e agora corre mundo. Logo irá para Ibiza e eu mudo-me para Chechaouén, no Marrocos. É um desses encontros cúmplices e fugazes tao comuns nos veroes. Durante o dia o sol brilhou com força e as rodovias estavam vazias. Agora é noite, e as Persêidas ou “As lágrimas de San Lorenzo”, uma chuva de meteoritos que acontece nessa época do ano, acende o céu em milhares de pontos de luz. É o momento certo e exato para contatos do Terceiro Grau. Se eles sabem que eu sei que sou observado por que nao se aproximam? Creio que tenho visto demais a filmes de ficçao-científica. É o meu gênero cinematográfico favorito. Um cao magro brinca com um pedaço de pau, enquanto leio sobre a morte de Bernard Levin, um dos comentaristas mais brilhantes do jornalismo britânico. Extravagante e contraditório, insolente e as mesmo tempo inseguro, Levin era muito mais odiado que admirado. Na tevê, usava a técnica da agressividade intelectual para amedrontar a seus entrevistados, desvendando suas verdades. Nao era superficial e vaidoso como o Jô Soares. Foi cuspido em público no intervalo de uma representaçao teatral e um entrevistado partiu a sua cara ao vivo por uma crítica especialmente cruel com sua mulher. É da turma da escrita culta e afiada como uma lámina, que inclue, entre outros, a Ring Larder Jr., Budd Schulberg, H. L. Mencken, Dorothy Parker, Gore Vidal, Tom Wolfe ou os brasileiros Paulo Francis e Sérgio Augusto. Seus desafortunados imitadores chovem aos montes, e no nosso país Diogo Mainardi é a atual versao Frankenstein. De um só gole viro a taça cheia de vinho dos deuses, homenageando Levin com o batismo simbólico de um dos meteoritos com o seu nome. Pella é a terra natal de Alexandre Magno, o Grande. Convivi intimamente com ele, lendo uma série de livros sobre a sua vida, sendo o último deles, o fabuloso “O Garoto Persa /The Persian Boy” ( 1972), de Mary Renault. Plutarco conta que o nascimento de Alexandre foi precedido por visoes e prodígios. Teve lugar no mês de Hecatombeón, que os antigos macedônios chamavam Loo e nós agosto, e coincidiu com aquele incêndio que destruiu o famoso templo da deusa Artemís, em Éfeso, uma das sete mravilhas do mundo antigo. Num pequeno museu local admirei uma cabeça de Alexandre representado como um jovem efebo. Falta o nariz, porém é idêntica a dezenas de outras que vi em museus e publicaçoes. Alexandre foi um dos primeiros a se preocupar com sua imagem pública, o usual marketing político que hoje é responsável por grandes saques nos cofres públicos. Teve seus próprios escultores e pintores de corte, que reproduziram sempre o mesmo retrato. Nao mostra a um homem, e sim a um ideal, um deus. Nunca conheceremos sua aparência real, nem sequer aqui, no lugar que nasceu. Colin Farrell acabou de interpretar o herói no filme que o polêmico Oliver Stone prepara. Quando perguntado se os amores homossexuais do bravo conquistador seriam abordados na história, respondeu: “Como pano de fundo, discretamente. A sexualidade de Alexandre nao é fundamental para o nosso filme”. Como assim? Desde quando a sexualidade de um protagonista nao é importante para o cinema norte-americano? Caso fosse mais uma das dezenas de versoes da vida de Cleópatra, ela daria para Júlio César e morreria de amor por Marco Antônio. O recinto arqueológico de Pella, situado numa regiao sagrada e onde se coroavam e enterravam reis, está contaminado por abomináveis turistas, desses que levam os filhotes em carrinhos, comem sanduíches sintéticos e visitam monumentos sem nem mesmo saber quem foi Bucéfalo. Além disso, as ruínas nao sao nada extraordinárias, e do que um dia foi uma grande cidade, restam somente umas poucas colunas em pé. Porém estar na furgoneta Vênus admirando estrelas cadentes na penumbra, comendo tortilla de batatas e pensando no jovem que se lançou a conquista do mundo e a uma vida apaixonada de apenas 32 anos, é admirável e revigorante. O próprio ar vibra com o poder da imaginaçao. Sei que vivo o sonho de uma noite de verao. No céu, as velozes Persêidas sao flechas de fogo desenhando uma luminosa trajetória de poucos segundos. Entre 20 de julho e 20 de agosto, quando a Terra cruza a órbita do cometa Swift-Tuttle e suas partículas entram na atmosfera terrestre, essas populares estrelas cadentes da constelaçao de Perseu podem aparecer em qualquer lugar e em toda parte. O melhor lugar para observá-las é qualquer lugar, quando mais escuro melhor, algo assim como Vênus depois que apago a lanterna. É um assombroso espetáculo de luz e cor! Portanto, meu caro leitor, nao seria melhor desligar o computador e ir para o campo, as montanhas, uma praia deserta ou a Chapada Diamantina?

 

 



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