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/ Se um viajante numa Espanha de Lorca
 
 

 

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A MORTE DE UM AMOR NAO É MENOS TRISTE QUE A MORTE

Antonio Junior
antonio_junior2@yahoo.com
http://www.elgitano.blig.ig.com.br
Cádiz, España

 

Aqui onde trabalho, ou melhor, do lado de fora de minha janela, as andorinhas voam em revoada, o Estreito de Gibraltar afunila um vento furioso, Tânger se oculta na névoa e belas andaluzas vestidas de cigana caminham em direção a festa da Virgem de la Luz. Gosto desse lugar de gente ingênua e caipira, esta espécie de aldeia, que na noite é povoada por adolescentes bêbados e fumadores de haxixe; gosto das vozes altas e das canções melodramáticas, da loja dos marroquinos, cheia de inutilidades delicadas, das frutas silvestres, das viúvas de negro, da nuvem de fumaça de cigarros em todos os bares, do céu transparente coberto de estrelas cintilantes, das ruas apertadas e centenárias. Não gosto das gaivotas - que me parecem ratos com asas -, das crianças histéricas e dos turistas estúpidos ávidos por prazer. Aqui onde trabalho, meu caro leitor, vejo um pequeno restaurante com a televisão ligada em um canal esportivo, o garçom bonito atravessando o salão com uma paelha, a cozinheira sul-americana abanando-se com leque bordado com flores douradas e em um jornal no balcão, a manchete da vitória de um toureiro, El Cordobès. Nesta minha caverna de papéis, revistas, cedês, fotografias e velhos filmes, recupero-me da morte de um amor pensado para toda a vida. Não estou triste, já não sei ficar triste, sempre encontro boas razoes para continuar acreditando na vida, porém o funeral de um amor é de um vazio inconsolável. Uma idosa cigana, Lola, que me deu um curso sobre cartas de adivinhação, sugere que eu faça a pé os 110 Kms. do Caminho de Santiago. Jura que voltarei recuperado, de coração aberto, pronto para outro relacionamento intenso. Estive duas vezes nessa cidade galega, embora nunca tenha feito a caminhada, e na primeira delas, em 1995, creio, encontrei a nossa telúrica Baby Consuelo e a atriz Shirley MacLaine. Não me vejo como peregrino, minha fé não é suficiente. O Caminho de Santiago é “a Santiago”, pois hoje é uma via que conduz a uma só direção, a um único destino, incômoda para quem crê que o relativo é absoluto, que a vida não tem destino, sentido ou transcendência. O Caminho de Santiago é uma flecha, amarela de luz de sol de dia e prateada de luz de estrelas de noite. Uma trilha até a cova da morte. É procurar ao sepulcro. A modernidade fabricou gente otimista que não crê no passado e confia no futuro, que entende que a vida é um fugaz equilíbrio sobre o abismo do nada, porém ainda existem esses “pés-na-estrada” torturando seus corpos: vão render fidelidade a uma tumba. Uma tumba é o passado, porém também o futuro. Gente de países industrializados que voltam a fazer a velhíssima descida ao Hades grego, ao País celta dos mortos. Que veneram a um decapitado milagroso que promete vida além da morte; ressurreição. As religiões tentam racionalizar-se para aproximar-se ao nosso tempo. Não sabem já muito bem que fazer com o mistério, esse campo do sobrenatural, pois ninguém crê em milagres e os sacerdotes menos que ninguém. Porém agora estão no Caminho muitas pessoas que perderam a religião de seus antepassados, que não sabem dizer o que buscam, e ainda tivessem palavras nada falariam pois se envergonham de reconhecer que buscam ritualidade, transcendência e sentido, que buscam contato com algum Todo. Que buscam religião, em suma. O Caminho é hoje muitas coisas, antes de mais nada turismo. Um turismo banal e banalizado, barato. Turismo massivo, vulgar, nervoso e um tanto brutal que fere o sentido da peregrinação; qualquer sentido que esta tenha. Também turismo cultural que une o lazer, com a moda ecológica e com a curiosidade histórica e artística. É também uma via interior que podemos chamar terapêutica. Permite a quem peregrina centrar sua cabeça enlouquecida, reconstruir seu interior e fazer um exame de sua vida, uma análise. Embora quem se entrega ao Caminho fará uma viagem mais transcendente, pois ele não só tira a gente de sua vida bizarra fazendo-a descansar de si mesmo, como também leva a um plano mítico. O Caminho tem uma finalidade oculta: quem avança encontra tanto pousadas acolhedoras como rios, montanhas, bosques e labirintos. É um desenho com forma de sistema arterial que rega a velha e a nova Europa e que tem seu motor, com forma de coração, na velha cidade que rodeia a tumba. Quem segue esse desenho, tendo fé religiosa ou sem ela, terá uma verdadeira experiência. Existem coisas impossíveis de se discutir, porque não podem ser ditas em linguagem verbal. Existem coisas que só se podem experimentar. Muitos amigos queridos fizeram o Caminho, e noto que não sabem verbalizar sensatamente o ato, mas o brilho do olhar de cada um deles diz tudo. O caso mais hilário e surpreendente é o de uma amiga mineira, Daniela, que incapaz de deixar de lado sua vaidade necessária, fez todo o trajeto de saltos plataforma. Belíssima, como poucas mulheres nesse mundo de belezas sintéticas, enfrentou sozinha noites e dias sem qualquer receio, e a “loucura” tocou o seu coração e o seu espírito. A maior parte das pessoas que fizeram o Caminho experimentam vivências que não tem palavras, pois os contemporâneos, ou se prefere os agnósticos, não encontram palavras para falar o extraordinário, o próximo ao milagre. Vivências que tem a ver com a elaboração de nosso mundo interno e também com a experiência de que o mundo está vivo e de que nós estamos dentro dele e lhe pertencemos. Uma experiência de entrega. E também de dissolução e morte. A Igreja católica-romana tutela o Caminho e diz que é um símbolo de fé, porém na realidade desconfia dele, pois tampouco sabe o que fazer com o místico e desconfia dessa religiosidade silvestre que não é de ninguém, não tem dono. Porque a Igreja administra o dogma porém o mistério é selvagem e obscuro e só podem espreitá-lo os místicos, embora sejam figuras malvistas que nem sequer tem dogma ou confissão. Porém tem os pés na estrada, e um destino. O Caminho é uma via iniciática que se atualizou (inclusive com a ajuda de Paulo Coelho e o seu popular “Diário de um Mago”) e volta a entrar na cultura européia. Há apenas 20 anos, a tradição das peregrinações a Santiago parecia destinada a uma decadência sem remédio. Em 1984, não se entregou mais que 260 “compostelas”, o documento que prova a caminhada de ao menos 100 quilômetros por “promessa, piedade ou devoção” que já recebiam os caminhantes da Idade Média. Ao terminar este ano se espera entregar 150.000 “compostelas”. É um mito que supera a tecnologia, levando a valores, convicções e referências simbólicas de outros tempos. O Caminho, acreditando nele ou não, une o passado e o presente, o metafísico e o racional. Aqui onde trabalho, ouvindo neste momento o trote compassado de um cavalo e vendo roupas coloridas penduradas em varais externos, penso que seguir a trilha de um amor que morreu é demasiado penoso, e não me vejo buscando o “renascimento” no Caminho de Santiago, o meu caminho são as palavras escritas, palavras que falam da perplexidade humana diante do vazio e da solidão de todos nós. Qual o seu caminho, meu caro leitor?

 

 



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