Se um viajante numa Espanha de Lorca

Antonio Junior
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España

I. I RES MÉS (E NADA MAIS)

A rodovia a caminho de Cadaqués é pintada por giestas, flores campestres de um amarelo dourado. Na entrada da cidadezinha idílica, de mil habitantes, situada no ponto mais oriental da Península Ibérica, lê-se numa placa: ”I Res Mès” (E nada mais, em catalão). No Cap de Creus (Cabo das Cruzes), chamado também de Cabo do Inferno, um farol de 1853, do tempo de Dona Isabel II, avistamos gaivotas eufóricas sob o azul mar mediterrâneo, barcos de pescadores, sólidas casas brancas, muitos turistas franceses e tufos de alfazema. É uma zona de pântanos dentro de uma reserva marítima e terrestre, queda dos pirineus até as águas tranquilas, sem ondas, do mar em forma de enseadas. Em Port Lligat (Porto Atado), estivemos na casa-museu do genial Salvador Dalí, cenário familiar do surrealista que passava verões nele com o amante Federico García Lorca e terminou conhecendo a musa de toda a vida, Gala, então mulher do poeta francês Paul Eluard. Dalí, que aprendi nestes dias que vem de ”delir-se”, ou seja, ansiar, graças ao seu centenário está presente em várias mostras na Espanha. Uma delas, na nova e subterrânea sala de exposições da La Pedrera, aborda a sua admiração por um dos mestres da arquitetura modernista, Antoní Gaudí, que em catalão significa ”gaudir”, gozar. Entre curvas perigosas e cidades de nomes impressionantes (Olot, Ripoll, Rupit, Vic, Ogassa, Figueres, Girona), cortamos o parque natural de Montseny, montanhas de mais de dois mil metros de altura, pontes romanas, vales, rios gélidos e transparentes. A partida, depois de uma hora de trem da Estação de Sanz, na cidade de Sant Celoni, revelou-se impactante com o número de imigrantes africanos e romenos que lá vivem, além de uma bucólica ponte milenar derrubada em parte por seus moradores para evitar a invasão das tropas napoleonicas em 1810. A história está presente em todas as partes. O idioma catalão também, quanto mais nos aprofundávamos na Catalunha ficava visível que não havia interesse dos nativos em comunicar-se em castelhano. Os bosques, como o La Selva, protegidos por rigorosas leis ambientalistas, são viveiros de perdizes, coelhos, javalis e cervos. Para chegarmos a Rupit, uma inacreditável cidade medieval do século XVI, de 400 habitantes, atravessamos uma ponte de madeira e aço, estilo Indiana Jones, dezenas de metros acima de um belo rio. Neste rochoso vilarejo, sem ninguém nas ruas – o que é comum na Catalunha profunda -, paramos numa pousada-restaurante em que uma adolescente entediada estudava piano. ”É uma lástima viver aqui”, queixou-se. Antes de seguirmos viagem, comi um delicioso sanduíche de pá de pagés amb tomáquet recheado com vários embutidos (pernil salat, catalona, bull, llonganissa e fuet) acompanhado por uma gelada clara (cerveja com refrigerante de limão) num recipiente tradicional e centenário. Orei no santuário de Nossa Senhora del Far, na capela de Sant Martí de Surroca e no mosteiro de Santa Maria de Ripoll, dos séculos X-XI, túmulo de muitos nobres. Dormimos na minúscula Ogassa, terra de minas de carvão, que pertence a comarca do Ripollés, no grande e vazio hotel Can Costas, como o habitado por Jack Nicholson em ”O Iluminado”.

Do meu quarto, vi a lua minguante, Vênus, a montanha Taga, robles e a Fonte del Miner. Antes de dormi, devorei parte de um coelho assado e batatas recheadas fritas, tomando o bom vinho Sangre de Toro. Em Besalu, visitamos uma sinagoga do século XIII e a soberba Ponte Velha, estilo românica, do século XI. Deslizando pelos vales pirenaicos avistamos gordas e brancas vacas ao sol, com pequenos sinos pendurados nos pescoços, e plantações de oliveiras. Terminamos na comarca de L´Empordá, na Costa Brava, nas ruínas gregas e romanas de L´Empuriés. A noite caía. Uma estátua de Ifigênia, a filha de Agamenón, do século III a.C., reinava perfeita e soberana no mágico recanto na beira do mar. Em 1925, Dalí trouxe Lorca para este mesmo lugar. Quem sabe não namoraram encostados no porto grego que rasga o mar? O meu coração pulsava acelerado. O tempo não tinha fronteiras. De volta a Barcelona, li no jornal ”La Vanguardia” sobre as boas relações do ex-presidente José María Aznar com o sanguinário Bush. Na Califórnia, Aznar criticou o novo governo espanhol, acusando-o de trair alianças políticas fundamentais. Aznar, do PP (Partido Popular), segue uma política franquista, ou seja, de extrema direita. Espera-se uma nova derrota do seu partido nas próximas eleições de 14 de junho, para o Parlamento Europeu. Ele nunca viu com bons olhos os imigrantes. O presidente atual, José Luís Zapatero, pensa diferente e as relações entre Brasília e Espanha estão se intensificando. O nosso Lula está na moda por aqui, inclusive recebeu o prestigioso prêmio Príncipe de Astúrias. A elogiada participação do Ministro da Cultura, Gilberto Gil, no Fórum das Culturas Barcelona 2004, também foi fundamental para outra visão do nosso sofrido Brasil. É uma boa nova para os milhares de brasileiros que estudam ou trabalham neste belo, místico e acolhedor país. É uma terra atualmente inclinada para os sentimentos anti-violência e anti-belicista, por uma Europa unida política, econômica e socialmente, com uma atenção especial aos países menos favorecidos, distante do radicalismo unilateralista dos atuais mandatários de Washington. Até mesmo a boda real do príncipe Felipe de Borbón com a plebéia Leticia Ortiz, uma ex-apresentadora de telejornal, no ultimo sábado, em Madri, foi tratada por muitos espanhóis como uma pomposa e ultrapassada encenação teatral. Longe da paixão britânica, poucos jovens neste país levam a sério a nobreza. A ambígua sexualidade do herdeiro do trono é questionada por eles quase com desdém; se preocupam muito mais com os feitos futebolísticos de Ronaldinho ou as noitadas ”calientes” regadas a vinho tinto e haxixe. Antes de iniciar este artigo, ligo a tevê para assistir “Manjar de Amor”, do interessante cineasta catalão Ventura Pons, é uma história gay passada em parte na considerada capital gay européia, Barcelona. A tevê espanhola é vulgar e pouco criativa, mas o cinema deste país é vigoroso. Seguindo minhas próprias regras de dedicar-me as artes do país que visito, vi nos últimos dias ”La Mala Educación”, de Almodóvar, que não está nos seus melhores dias, mas supera ”Fale com Ela”; o competente drama histórico ”Juana la Loca”, de Vicente Aranda; e uma impressionante Victoria Abril no mais novo Carlos Saura, ”El Séptimo Dia”. São dias comoventes, que iluminam o viver: aprendizado, alegrias, belezas naturais e históricas, arte e cultura, nenhuma violência e bom acolhimento. Olé, chicos y chicas!

II. A AVENTURA COMECA DENTRO DE NOS

Há pouco mais de três anos estive no Marrocos. É uma terra que, inexplicavelmente, toca o coração, acende a alma, dá-me uma vontade débil de abandonar as origens tropicais e viver como ermitão à beira do Saara. Talvez seja um romantismo fincado em Rimbaud ou nos inúmeros escritores viajantes que li e passaram temporadas em Tânger e Marrakesch. Casablanca, nem pensar, nem de longe lembra o clássico com Bogart e Ingrid Bergman; é feia e suja. Hospedado na pequena Tarifa, balneário turístico de reminiscências mouras, daqui movimento-me facilmente por toda a ardente Andaluzia. Ao acordar, o primeiro ato que faço, é ir à janela do quarto, num terceiro andar, e avistar o outro lado do estreito de Gibraltar, buscando as montanhas e as casas brancas do território africano. São apenas 14 Kms separando este ponto de Espanha do Marrocos, algo parecido com Salvador e a ilha de Itaparica. Assim iniciam os dias ensolarados. Em paz com a vida, dou um bom-dia para a revoada de andorinhas e coloco um flamenco no discman, antes da meditação, do café forte e da leitura dos jornais. Uma vizinha com a cara da atriz paulista Etty Fraser e de mais de 80 anos, pergunta o meu nome, e vacilo, fico em dúvida, não sei o que responder. Qual o meu nome? Sou tantos. Há um Antonio poético e aventureiro errante, um Antonio porra-louca e pessimista, um Antonio disposto a saltar no vazio sem pára-quedas, outro obcecado pelo amor. Há um Antonio espiritualizado e acorrentado ao silêncio, um vaidoso e encantado com as suas publicações mundo afora. Quantos, do que sou, escreve? Qual deles acorda no meio da noite e vê assombrações? Quantas cabeças pensam dentro da minha cabeça? Por que motivo sinto tanto prazer em mudar de casas, cidades, países? Que quero? Quem espero? A mensagem on-line de um amor que já não me deseja ao seu lado? Uma frase em castelhano que signifique tudo? Sou uma caixa de surpresas, como essas bonecas russas ocas – as matrioskas – que trazem dentro outras bonecas ocas, e sei que a aventura começa dentro de mim. Me sinto afortunado por estar na Espanha, um país comovente, mas são tão poucas as árvores, e gosto loucamente delas, seu perfume, o som das folhas ao vento revelando os segredos do mundo. Eu falo com elas. São os seres mais inteligentes nesta temporada mundial trágica. Mesmo sem os ridículos telejornais da Globo, continuo acompanhando a imbecilidade e sacanagem através dos periódicos e da internet. Se tivéssemos que ocupar-nos somente destas patifarias – e quando são realmente perigosas não há outro remédio – , nossos neurônios seriam batidos como vitaminas, se transformariam em mecanismos robotizados e babacas. Um dos problemas da maldade é que é um produto da estupidez. Gente capaz e inteligente se vê obrigada a discutir e rebatê-la, e portanto escutar opiniões insanas, reacionárias ou conservadoras. Creio que foi Kant que advertiu contra isso: “Nunca discuta com um idiota. As pessoas podem não notar a diferença”. Mesmo assim, nem sempre é possível seguir esse conselho, principalmente quando se trata de crimes e corrupção. Na Espanha, praticamente todos os dias uma mulher é assassinada pelo marido ou namorado. É uma loucura! As pessoas também se suicidam como besouros atraídos pela luz elétrica. Sem falar na cruzada anti-terrorista homicida perpetuada por Bush e Rumsfeld, dois dos malucos que mais derramaram sangue nos últimos anos, divulgada tediosamente. Como levar a sério um chefe de Estado como Bush que solta frases burras tipo: “A falta de provas não prova a ausência”. Ele falava das invisíveis armas iraquianas de destruição em massa, não sei se recordam. O certo é que nesses casos, além de se sensibilizar pelos mortos e feridos e viver em permanente paranóia, não há outra solução do que ouvir os criminosos, o que argumentam. São explicações completamente estúpidas. Bem parecido com o que faziam os nazistas. Qualquer um que saiba algo sobre a história do Terceiro Reich comprovará que nas estrelinhas dos discursos de Hitler não havia uma só idéia interessante, original ou completa. Basta ver “O Triunfo da Vontade”, o monumental documentário de Leni Riefenstahl sobre as concentrações nazis de Nurembergue em 1934, para verificar que as massas se empolgavam com palavras vazias e ignorantes. Mas chega de vilões e covardes. O dia acaba de nascer – as 8 da manha! -, deixo os jornais de lado e volto para a janela. Olá, andorinhas! Olá, Marrocos, uma hora dessas estarei por aí. E levarei o meu coração. Sim, mesmo nesse mar de esquizofrenia, o meu coração cigano continua empolgado com as coisas simples da vida. E o seu, me caro leitor?

OS PECADOS DE TODOS NÓS

Estive numa regiao catala palco da inquisicao medieval. Lá, como em tantos outros lugares do mundo (leram a esquecida e muito bem escrita “O Santo Inquérito”, de Dias Gomes?), queimaram milhares de supostas bruxas. Na Andaluzia, observando monumentos e placas comemorativas, certifico-me como os reis católicos fizeram de tudo para aniquilar a cultura árabe, muito mais desenvolvida e sábia na época do que a ocidental. A catedral de San Matheo, em Tarifa, por exemplo, foi construída em cima das ruínas de uma mesquita moura. Mas tudo indica que o poder do Vaticano está findando, possivelmente nem chegue ao próximo século. O conservador papa Joao Paulo II, mesmo mais morto do que vivo, continua entre outras coisas, impondo o celibato para padres e combatendo o divórcio, preservativos, aborto, sacerdócio feminino e relacoes homossexuais, o que afasta uma infinidade de fiéis. Novas religioes e seitas surgem inesperadamente, confundindo uma humanidade desorientada. É a velha história do se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Os nossos pecados nem sei mais se podem ser denominados assim, afinal a fronteira que separa o bem do mal é cada vez mais nebulosa. O Vaticano, de Sao Pedro até hoje, 20 séculos depois, há contabilizado 264 pontífices. Entre eles houve, como é natural, criaturas generosas, cultas, humildes, larápias, criminosas e loucas furiosas. Sao o espelho dos filhos de Deus. Há, no entanto, uma lenda – segundo a igreja católica, e rebatida por alguns historiadores que apostam na veracidade dela – fascinante: Joana, a mulher papa. Conta Martin Polonus, um monge do século XIII, que ela nasceu quatro séculos antes em Maguncia, ávida pelo aprendizado; travestiu-se e viajou a Atenas, tornando-se uma celebridade pelos seus conhecimentos. Sempre disfarcada de homem, foi a Roma no ano 855, elegendo-se papa por unanimidade com o nome de Joao. Dizem que reinou durante dois anos, cinco meses e quatro dias, e que o fez bem e com prudência. Porém ficou grávida de um monge e durante uma solene procissao, deu a luz. O espetáculo enfureceu os cristaos, e a papisa, atada pelos pés no rabo de um cavalo, morreu arrastada pelas ruas de Roma. No lugar de sua infâmia, ergueram a estátua de uma mulher com trajes papais e um bebê nos bracos, tombada pelo papa Pio V (1566-1572). O Vaticano insiste em negar o acontecimento e esse período, como chefe espiritual supremo, está ocupado por Benedito III, de quem nunca se ouviu falar. A estátua existiu e a viu, entre outros, Martin Lutero em sua viagem a Roma em 1503. O certo é que a igreja católica esconde muitas histórias, documentos e livros fundamentais (lembram de “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco?) para uma compreensao maior do passado da humanidade. Sao Malaquias, um monge irlandês do século XII, depois de uma de suas inúmeras e herméticas visoes, profetizou que o catolicismo só teria, a partir da época dele, mais 112 papas. Faltam somente dois. Oremos para que seja verdade, ou pelo menos para que a popular igreja romana assuma publicamente os seus pecados, renove-se e siga honestamente a cartilha verdadeiramente santa do inesquecível Homem de Nazaré.

IV. ESPIOES Y AMIGOS

Tive a sorte de conhecer em minha vida algumas figuras notáveis, dessas que se distinguem dos que os rodeiam pelo desenvolvimento do espírito, mostrando-se ao mesmo tempo parceiras da fauna e da flora, generosas e tolerantes com a debilidade do próximo. Ainda menino, admirava um velho senhor, “Sêo” Marinho, que aparecia subitamente na nossa casa e rezava toda a família, protegendo-nos de enfermidades, do mau olhado e de outras energias negativas. Inclusive o meu pai, homem indiferente a religiosidade, sentava numa cadeira e fechava os olhos, enquanto o “notável” acariciava o seu corpo com folhas de guiné, acompanhadas por um cântico caboclo e incompreensível. Sempre descalço, ao intuir alguma impureza no fiel, receitava banhos de certas folhas, flores e ervas aromáticas. Nunca soube a idade daquele homem de expressão cálida que durante anos foi o nosso “médico de alma”, lutando espiritualmente contra nossas inúmeras dificuldades. Me parecia velhíssimo. Sei que um dia desapareceu sem deixar pistas. Outras pessoas foram significativas em minha formação, resultando encontros inquietantes. A mais recente delas chama-se Camiño Lasso. É uma famosa ex-modelo espanhola, agora retirada no Huerto del Cañuelo, em Bolonha, no território andaluz, ao lado de uma centenária cidade romana, Baello Claudia. A dama é alta, magra, suave e sofrida. Passou por poucas e boas. Depois de catorze anos com curtas temporadas nas terras adquiridas e onde hoje vive, mudou-se para lá há quatro anos. Nos dias de sol, senta no muro de pedra, e durante horas olha o bosque de pinhos e o infinito mar esmeralda, como se o espetáculo da vida estivesse escrito nas linhas formadas por ondas e folhas (e não está, meu caro leitor?). Ela escuta, sem que a sombra de um gesto deforme os traços de seu belo rosto. Mantém os olhos fixos na dança dos ventos. A branca casa mediterrânea está no alto da montanha, ao lado de duas árvores hipnotizantes: o frondoso ficus australis e a centenária amoreira com tronco naturalmente em forma de dragão. “Tudo aqui é sentimento”, ela diz. Ladeando uma enorme pedra de formas geométricas – um dedo de Deus quadrado -, chega-se ao vale sagrado, o Huerto de Isadora. Cercada por rochas, a planície bucólica é um santuário de silêncios, local de rituais dos adoradores da deusa Isis. Há um lago raso com papiros e lótus, cantos de rãs; árvores frutíferas e flores. Da Ásia, a magnólia branca e o Jinko Biloba, uma das mais antigas árvores do planeta, jurássica, a única espécie sobrevivente as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki. O chá de suas folhas rejuvenesce os neurônios. O vale é uma porta para outra dimensão, rumo ao desconhecido. No jardim, margaridas do campo formam a frase “Buscando Paz”. Três dias após a cerimônia fúnebre de sua filha Isadora, que teve as cinzas lançadas ao vento, ao escavar um canto do vale, Camiño encontrou um frasco romano de cristal, de mais de dois mil anos. O presente tornou-se um amuleto. Camiño Lasso toca o meu coração, assim como outras mulheres: mama Lourdes, a poeta Hilda Hilst, a assistente social Mayte Sorribas – que vive na selva mexicana -, a escultora Pepa Armentès, a potiguar Ana Cláudia Bezerra ou as baianas Zélia Uchôa, Fahda Juhè e Vera Rabelo. São mulheres notáveis, espontâneas, generosas, sábias em suas respectivas escolhas. No Huerto de Isadora me sinto espião, um espião amigo, sem inveja ou curiosidade mórbida. Hoje pela manha, enquanto fotógrafos e jornalistas do Harper’s Bazar Magazine documentavam a beleza do lugar, eu descobria folhas, sussurros, formas, manchas, perfumes, raízes, insetos. Ser espião da formosura da vida é um tônico para o corpo e o espírito. Ando lendo sobre uma espia no sentido mais exato da palavra, a russa Olga Tchékov (1897-1980), sobrinha do autor de “A Gaivota”. Ela levou uma vida fascinante na Alemanha nazista como estrela da corte do Führer. Belíssima, fez furor no teatro e no cinema, nos estúdios da UFA (Universum-Film AG), sob a direção de gênios como Murnau, Lubitsch e Fritz Lang. Fugiu da Rússia em 1921, rodando em Paris “Um Chapéu de Palha da Itália” (1926), de René Clair, e em 1930, terminou contratada pela Universal para filmar em Hollywood. O forte sotaque russo-alemao não era apropriado para o recente cinema sonoro, e voltando a Alemanha é nomeada Staatschauspielerin (Atriz do Estado). Aproveitou a condição de celebridade e a admiração de Hitler e Goebbels, tornando-se informante fundamental para a sua pátria. Nunca os nazistas souberam de sua vida secreta como espia e ela continuou filmando até 1974. Morreu em 1980, aos 83 anos. Antes do último suspiro, Olga Tchékov bebeu uma taça de champanhe e disse: “A vida é bela”. Uma figura notável, sem dúvida. Como poucas neste mundo marcado pelo medo, vulgaridade, maus costumes e falta de vergonha na cara.

V. IDÉIA FIXA

Depois de andar uma hora pela praia semi-deserta, detenho os passos em um riacho que desemboca no mar, e olho a ilha de Las Palomas, que já foi um importante santuário fenício, e as ruínas de uma ponte romana. Estou parado entre o mar e o rio, meu caro leitor, e a história navega em minha mente neste importante Estreito de Gibraltar. Na cabeça, a mítica e perdida Atlântida como idéia fixa. Platao dizia que estava localizada exatamente aquí, depois das colunas de Hércules (os monte Calpe e Abila), com seus canais, fachadas de prata e tetos de ouro, templos, palácios, teatros e basílicas. Uma colossal estátua representando Poseidón sobre uma carruagem de seis cavalos alados reinava e os atlantes eram ricos e sábios, porém termiram corrompendo-se e perderam sua virtude, terminando por provocar a fúria dos deuses e a cólera dos mares. Em 1637, Francis Bacon escrevou “Nova Atlântida”, onde um governo culto administrava a felicidade absoluta. Robert Graves pensava que a Atlântida correspondia a uma zona afundada próxima a antiga Cartago, pertinho de Túnez. John Dee, o astrólogo da rainha Elizabeth I de Inglaterra, afirmava que estava nas Índias Ocidentais. O explorador P. H. Fawcett, um coronel obsecado por encontrar a cidade mágica no Brasil, terminou desaparecido nas selvas amazônicas. Em cada época, o mito de Atlândida ressucita o imaginário mundial de cientistas e aventureiros. Atualmente, um geólogo francês e um físico alemao, graças as fotos obtidas pelo satélite Eurosat, garantem terem localizado-a na chamada Marisma de Hinojos, no Parque Nacional de Doñana, ou seja, na Andaluzia. Será verdade ou mais um truque de um desses loucos pela fama? Observo o mar azul e sereno em busca de um sinal. Estou completamente sozinho na zona de antigas e importantes cidades romanas: Mellaria, Baelo Claudia, Julia Ioza e Baesippo. Nu, deito-me na areia. Minutos antes, acabara de ler uma obra do russo G. I. Gurdjieff. Era uma poderosa personalidade humana, reforçada por elevada espiritualidade, falava 18 idiomas e o seu grupo dos “Buscadores da Verdade” fundou o Instituto para o Desenvolvimento Harmônico do Homem, sendo visitado por escritores, pintores, compositores, médicos e atores. Ele procurava abrir a porta do “conhecimento”, pregando a idéia de um Deus único para todas as raças e credos, e o encontro com o nosso mundo interior e exterior, numa revisao radical de valores, além de resgatar danças e movimentos de cerimônias sagradas. A escritora inglesa Katharine Mansfield pouco antes de morrer escreveu sobre o instituto: “Prieuré é um velho castelo muito bonito, cercado por um parque admirável…Cuida-se dos animais, trabalha-se no jardim, faz-se música…A idéia é despertar o oculto, em vez de falar sobre ele”. Gurdjieff nasceu em 1866 e morreu em 1949, fez várias viagens a Ásia Central e seus livros foram publicados postumamente. Neste que acabo de ler, marquei com caneta (um dos meus vícios) algumas informaçoes que me pareceram inquietantes: os yezidas, chamados de Adoradores do Diabo, e que vivem perto do Ararat; os gormaj, espíritos malignos que entram nos corpos de homens que acabam de morrer; a célebre escola esotérica Sarmung, fundada em Babilônia 2.500 anos antes do nascimento de Cristo; o místico príncipe russo Yuri Liubovedsky; Oxus, adorado como um deus por certos povos da Ásia Central; e as experiências musicais reveladoras do autor. Num todo, Gurdjieff me pareceu charlatao, de métodos duvidosos, embora de uma inteligência e vivência raras. Ele nunca responde, como se propoe, por que estamos aqui, o que queremos ou que força obedecemos. Sua significância está em propagar a profunda filosofia oriental no Ocidente. Mergulho nas águas gélidas, voltando a pensar no continente nunca encontrado. É o dia de Sao Joao e o sol cintilante ilumina a praia de dezenas de quilômetros. O que mais admiro nas praias européias é que nao há futebol, frescobol, música, farofeiros, vendedores ambulantes ou gente exibindo o corpo – guapos e derrubados tiram a roupa com a mesma naturalidade e sem chamar a atençao. Fecho os olhos e ouço a cançao das ondas. Sao 22 horas e ainda a claridade é reveladora, logo as estrelas surgirao no céu sem nenhuma nuvem. Soube que somente na nossa galáxia existem dez mil milhoes de estrelas e no Universo pode-se contar dez mil milhoes de galáxias. Somos apenas bactérias querendo colonizar o Planeta Vermelho e liquidarmos-nos uns aos outros. Como provavelmente aconteceu com os habitantes da Atlântida. Deito-me outra vez na areia à espera de estrelas: sou um atlante, sou um cavalo-marinho, sou um baiano afortunado. Viva Sao Joao, meu caro e paciente leitor.

VI. DA ORIENTAÇAO SEXUAL DOS MARROQUINOS

Recentemente voltei a Tânger, pela primeira vez em mais de três anos, desde que fui convidado por ingleses a uma festa nos jardins de um luxuoso hotel, conhecendo nessa noite o escritor venezuelano Rodrigo Rey Rosa. Essa cidade branca lembra-me o centro antigo de Salvador, nas imediações da rua Chile. É irresistível, mística, suja e caótica. Muitas mulheres usam burka, o vestuário milenar que esconde as formas do corpo, revelando apenas olhos submissos; a população masculina anda de mãos dadas, bebe nas cafeterias um açucarado chá de hortelã e conversa altíssimo, e ao mesmo tempo. O reino do Marrocos, o país dos sentidos, faz parte do meu imaginário infantil, pois menino vi inúmeras vezes na tevê, “Casablanca”, o filme favorito de minha mãe. Ao contrário de outros cinéfilos, a obra de Curtiz não me interessa o suficiente, me parecendo confusa e o romantismo pouco envolvente. E como toda ilusão não é eterna, ao visitar Casablanca, terminei revelando a minha mãe suas características portuária e industrial, ou seja, uma cidade feia. Aos vinte e poucos anos, tomei conhecimento da literatura de Paul Bowles, que vivia no Marrocos desde o final da década de 40. Procurei-o pela primeira vez três anos antes de sua morte, e como o autor de “O Céu que nos Protege” se encontrava internado numa clínica espanhola e discuti com o meu companheiro de viagem, um alemão com péssima impressão da África do Norte, deixei Tânger no mesmo dia da chegada, disposto a aventurar-me por Marrakesch e o Saara. Era final de outono. O trem dos tempos da colonização francesa, que conserva poucos resquícios do passado elegante, tomou o seu rumo levando gordas senhoras carregando cestos de especiarias, fiscais fardados, crianças vendendo babuchas e o movimento contínuo de passageiros ditos “exóticos”. Na cabeça, informações de mulheres estrangeiras desaparecidas, corrupção policial, fanatismo religioso. Clichês, corretos ou não, divulgados para turistas. Sozinho numa cabine, fechei os olhos, relaxando ao concentrar-me em oásis, medinas (antigos centros comerciais e residenciais), palácios, souks (mercados), mesquitas, mellahs (bairros judeus) e na força da história de trinta séculos de cultura, numa encruzilhada de civilizações romana, berbere e árabe. Ao abri-los, deparei-me com um atraente nativo de uns 30 anos, de olhos esverdeados maliciosos fixos em mim. Incomodado, tirei o livro da mochila e procurei lê-lo. “Brasileiro? Ah, da terra do futebol!”, exclamou em castelhano, abrindo largo sorriso de dentes graúdos e brancos. Durante intermináveis minutos falou sem parar: o trabalho como garçom em Madri, a volta para as bodas do primo, a beleza da terra natal. “Está convidado para passar uns dias comigo. Vou hospedá-lo com um parente em frente ao mar. A celebração do casamento dura uns três dias. As mulheres numa casa, os homens noutra. Muitos cânticos, dança e haxixe”, repetiu numa ladainha hipnotizante. “Não será possível. Amigos me esperam em Marrakesch e sou estudante, não tenho dinheiro”, menti pouco convincente. Não se deu por vencido, mostrando fotos de paisagens fascinantes. “É um povoado precioso. Artistas passam temporadas lá, pintando e escrevendo”, insistiu. “Não gosto de arte, o meu negócio é a carreira militar”, exagerei, tentando intimidá-lo, e o personagem de fábula de Malba Tahan não me ouviu, verbalizando como papagaio desorientado. De repente, o trem estacionou. Aconteceu rápido: ele segurou a minha mochila de couro, tomei-a de volta, levantando-me, e a grande mão do suposto vigarista levou-me até a saída. Sem agressão, mas de um impulso ágil e dominador. O comboio partiu, restando nós dois numa estação em ruínas, em pleno deserto; um cansado camelo coberto de moscas largado no chão e um táxi negro aos pedaços. Acordando do transe, procurei a bilheteria, sendo informado do próximo trem na manha seguinte, às sete horas. Não soube como agir, meu caro leitor, me senti no fim do mundo, marcado para morrer. O estranho, dentro do automóvel, convidou-me para entrar, não aceitei, seguindo a seta apontando o povoado. O táxi ao meu lado, e o homem sem nome continuando o monólogo. Ao avistar o lugarejo, estremeci. O único mar visível era de areia e poeira, casas pobres, sol ardente. Nenhum hotel, posto de turismo ou outra salvação aparente. Os poucos habitantes olhavam-me indiferentes ou não entendiam as súplicas. O marroquino me seguia como sombra assustadora e, fatigado, cansado da tensão permanente, deixei-me levar, percorrendo ruelas labirínticas. No apartamento inacabado, apresentou-me a um garoto incrédulo, que mostrou o quarto destinado ao cativeiro. O primeiro andar bastante alto, não permitia saltar da janela. Optando pela inocência, aleguei novamente não possuir dinheiro, enfatizando a condição de cidadão de um país em dificuldades econômicas. Temia o roubo do passaporte, cartões de crédito e máquina fotográfica, camuflados no fundo da bolsa. Duelamos com palavras durante uns quinze minutos, e finalmente deu-me trégua, pontuando que depois resolveríamos a situação, era hora do “hamman”. Entramos numa sauna acolhedora e primitiva, aborratada de machos nus de variadas idades. Brincavam, barulhentos, fumando kif num pequeno salão e um ou outro cochichou, apontando-me com zombaria. Donzela lançada aos lobos, lembrei-me de Lawrence da Arábia estuprado por mouros. O acompanhante desnudou-se da chilaba, exibindo cicatrizes, como riscos de navalha, no corpo moreno e forte. “Passei por dificuldades”, confessou, sério, deslizando os dedos grossos por um corte na coxa até bem próximo do pau. “Tire a roupa e venha para o banho. Está nervoso, precisa de uma massagem”, ordenou. Lentamente desatei os tênis, avaliando a situação, e notei a porta central abrir-se para um grupo. O meu “carrasco”, deitado embaixo de um jorro d’água quente vindo de uma fonte de pedra, diluía-se pouco a pouco na fumaça. Aproveitei a brecha, correndo como um louco e sem direção exata. Anoiteceu, o silêncio imperava e eu, alucinado, esbarrei num jardim de palmeiras. Escondi-me entre o grosso tronco de uma delas e um muro baixo. Não adormeci, encolhido, alerta, em pânico. Ao amanhecer parti para a estação, certo de encontrar o vilão, mas nada mais além do camelo, do sonolento taxista e do bilheteiro. Aliviado, subi no trem para Marrakesch. Foi minha única aventura perigosa no Marrocos. Não sei avaliar quais seriam os planos do “seqüestrador”, recordo a voz educada, cúmplice e firme dizendo “Seremos bons amigos para sempre”. Voltei a Tânger no ano seguinte para entrevistar Paul Bowles, passando uma tarde inteira com o escritor. Sentados num café do Petit Socco, contou-me do amor incondicional pelo país e seus costumes. Terminei percebendo nessas visitas, a ambígua vida marroquina, atraindo gays célebres como Genet, Burroughs, Truman Capote, Allen Ginsberg ou Tennessee Williams, animados com a mistura de diversão, drogas, sexo e inspiração às portas do Estreito de Gibratar. Não há uma condição homossexual típica, como no Ocidente, mas é um universo masculino, e crendo na teoria da carne falando mais alto em concentrações excessivas de pessoas do mesmo sexo (leia-se internatos, mosteiros, esportes, exército etc.), tudo pode acontecer. O islamismo é a religião oficial e o dia ritmado por cinco chamados para a oração. É o “muezzin” que os anuncia por alto-falantes, mas os fiéis desafiam as leis do profeta Maomé, flertando descaradamente outros homens. Considerando suas fêmeas “sagradas”, intocáveis antes do matrimônio, os tipos bonitos e algo selvagens se dispõem a superar a miséria constrangedora e aliviar a virilidade. Dessa última vez em Tânger, vagando dois dias e uma noite, conheci uma inteligente bicha francesa, de Provence, e uma idosa inglesa proprietária de pousada doméstica sofisticada, Eric e Maggie. Vivem há anos na cidade como personagens de Bowles, freqüentado recepções em embaixadas e festas oferecidas por ricos europeus ou norte-americanos. Pode-se viver com pouco nesse país. Os marroquinos, usados como criados, objetos sexuais ou traficantes de drogas, sofrem perpétua colonização. Vejo-os como um povo corajoso e sem saída, lutando pela sobrevivência num momento global injusto e mesquinho. O preconceito e o abuso de poder dos estrangeiros transformam-nos em terroristas, ladroes baratos, comerciantes sem escrúpulos, prostitutos. Se toda exploração tem o seu fim, para o melhor ou o pior, é só uma questão de tempo, sensibilidade, lucidez ou revolta.

VII. AS COVAS DE FRANCO

Mais de sessenta anos do final da Guerra Civil e quase trinta da morte do General Franco, passando pela libertária “movida madrilenha” e a complexa Uniao Européia, os espanhós expoem suas feridas através de livros, filmes, documentários na tevê e espaço na mídia impressa. Uma dessas feridas mais dolorosas, alerta para um número macabro: trinta e cinco mil pessoas assassinadas pelo regime franquista durante e depois da guerra da década de 30, e enterradas em fossas coletivas e anônimas. Superando a dor, o medo e o silêncio, os parentes exigem os restos dos cadáveres, para que sejam resgatados e identificados por legistas e antropólogos. O poeta Federico García Lorca, o símbolo de todos os mártires do fascismo em Espanha, decompoe-se numa dessas covas infames. Segundo Ian Gibson, na sua excepcional biografia sobre o autor de “A Casa de Bernarda Alba”, um dos crimimosos, Juan Luís Trescastro, “alardeaba ruidosamente de haber participado no sólo en la detención, sino en la muerte de Lorca. “Acabamos de matar a García Lorca – se jactaba la mañana del asesinato -. Yo lo metí dos tiros por el culo, por maricón”. Mesmo assim, pediu ao pai do poeta uma considerável quantia para salvá-lo da morte certa. O rico senhor, iludido que o filho ainda vivia, desembolsou o resgate pedido. O cemitério invisível de Lorca, no campo granadino de Alfacar, visitado pela escritora Marguerite Yourcenar, recebeu dela tais palavras: “Nao se pode imaginar uma sepultura mais formosa para um poeta”. Nao é o que todo mundo pensa. Com o apoio de escritores, atores, cineastas e músicos, associaçoes para a recuperaçao da memória histórica organizam atos solidários contra a impunidade, pedindo os meios necessários para exumar, identificar, praticar provas legistas e entregar as famílias os restos da vítima. É uma luta heroíca contra o esquecimento amargo e injusto. Algo assim deveria ser reabilitado no Brasil. Seria impagável ouvir artistas recordando os anos de chumbo; desaparecidos lembrados, assim como os carrascos; censuradas obras literárias, musicais e teatrais relançadas, independente do valor artístico. É mais fácil esquecer o passado ingrato, mas muito mais valente enfrentar os fantasmas, para que as ditaduras e seus massacres monstruosos nao contaminem o presente. Todo mundo sabe disso, nao é novidade, e mesmo assim as novas geraçoes nao sao esclarecidas sobre o passado recente – só para nao ir além do sanguinário século 20. O escritor inglês Martim Amis, que faz parte do meu livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”, acredita na memória, provocando celeuma com “Koba el Temible”, lançado recentemente para o leitor espanhol. Trata-se de uma coleçao de observaçoes e testemunhos ao redor de uma idéia central: os inimagináveis extremos que o totalitarismo estalinista foi capaz de chegar. O cruel (qual deles nao é?) ditador soviético Stalin, entre outras barbaridades, ceifou vidas de escritores e poetas fantásticos. Assim como Franco enfiou dois tiros no cu de Lorca. Lorca está morto, enterrado (e talvez desenterrado em breve) e vive em livros, na imprensa, nao somente devido ao talento inquestionável (é o melhor poeta em língua hispânica, me perdoe os fas de Neruda), como também ao assassinato bizarro. Sou daqueles crentes que o esquecimento nao é o contrário do rancor, só é o contrário da memória. Na Andaluzia, a cada imigrante africano detido ou afogado na difícil travessia do Estreito de Gibraltar, recordo dos 90 mil mouros expulsos da regiao e outros tantos massacrados em intermináveis batalhas no século 13. Uma barbaridade pouco recordada. Os heróis da história geralmente levam a marca da embromaçao oficial e patriotismo cheira a fanatismo e sangue. O mundo é para todos. O importante é respeitar e compreender. Desenterrar atrocidades é uma boa forma de abrir a boca, pedir paz, formar uma corrente poliglota por um mundo melhor. Ou a humanidade, prisioneira do consumismo e do vazio, caminha para o fim e nada podemos fazer? Poderia responder-me, meu caro leitor? O evidente é que o século 21 começou muito mal. Se abriu uma nova era, a do terrorismo. E nao se trata somente de Al Qaeda. Existe como um culto ao massacre. O século anterior foi dominado por uma espécie de concurso de pesadelos. A Guerra Fria poderia ter acabado com a aventura humana, porém nao foi assim. Agora sabemos que o mundo dito civilizado terá que sofrer ainda muitas atrocidades. Preparem-se, a violenta fera do mal está solta e esfomeada.

VIII. QUE ALEGRIA DE VIVER!

Sou de família pouco dada à arte culinária. Os homens nao chegam no fogao nem para fazer café; as mulheres foram sao cozinheiras básicas, nada originais, preparando com dedicaçao pratos rápidos e caseiros com produtos da temporada, e renovando o menú a base de ingredientes ensinados de mae para filha. Por exemplo, Nininha, minha adorável avó materna, fazia um simples bife com sabor único que recordo até hoje, vinte anos passados, mas nao amava temperos, molhos, carnes, verduras ou frutos do mar como “cozinheiros de coraçao”. Nada cozinhei até a idade adulta, brigando ridiculamente com ovos em caçarola durante muito tempo, e na década passada, vivendo em Madri com cinco pessoas de quatro nacionalidades diferentes, inexperiente, passando dificuldades ecônomicas, tornei-me “cozinheiro” da noite para o dia. Em busca de reportagens com brasileiros famosos que visitavam a capital espanhola, batia ponto na Embaixada do Brasil, pedindo a Norma, funcionária do Itamaraty de intermináveis décadas, que facilitasse conversas com patrícios, ajudando assim um jornalista free-lancer sem contatos. O máximo conseguido: entrevistar a bela pintora Solange Costa, mae de Teresa Collor, que me recebeu num apartamento fantástico e é autora de quadros ruins; e Lícide da Matta, ex-prefeita de Salvador, ao receber um prêmio humanitário das maos da Rainha Sofia. Flávio, estudante de psicologia goiano, vizinho de quarto, veio com a louca idéia que nos tiraria do aperto financeiro: “Somos cozinheiros. Vamos responder a este anúncio”. O anúncio publicado no El País procurava cozinheiros de outros países para durante dois dias na semana criar e executar menu “exótico” – com quatro pratos de entrada, quatro principais e duas sobremesas -, pagando muito bem. “Nao sei cozinhar, Flávio, e você muito menos”, rebati, tentando evitar a irresponsabilidade. “O chefao nao precisa saber desse detalhe”. Marcamos a entrevista, o proprietário aprovou o duplo currículo, e dentro de três dias seria a estréia. Enlouquecemos, ligando para as nossas maes pedindo receitas, consultando livros e revistas, estudando cada prato teoricamente, pois nao havia dinheiro para gastos. A lista de compras passada ao gordo proprietário, poderia ser tratada como verdadeiro tesouro para brasucas no exterior: feijao preto, dendê, leite de côco, mandioca, abacaxis, mangas, pimenta malagueta, cebola roxa. Iniciamos o trabalho às oito da manha, consultando discretamente as receitas selecionadas e ouvindo grunidos de reclamaçoes dos ajudantes portugueses, que alegavam a impossibilidade de fazer um bom arroz da nossa forma, entre outras coisas. Às onze, dezenas de operários de diversas nacionalidades – inclusive brasileiros -, chegaram ao restaurante popular, ocupando todas as mesas. No dia seguinte, o proprietário dando como desculpa o alto custo do nosso cardápio, que segundo ele ultrapassava o orçamento previsto, nao compensando, pagou-nos o prometido e desejou melhor sorte noutro lugar. Nunca soubemos se o intento agradou ou provocou revolta, porém temos uma única pista positiva: os pratos que voltaram vazios. Depois dessa farsa digna das comédias de Woody Allen, começei a me interessar pela cozinha baiana, aprendendo alguns truques para facilitar a preparaçao e usando ingredientes alternativos, e no ano de 1999, em Barcelona, me lançei publicamente como cozinheiro, chamando quinzenalmente amigos para provar comidas com nomes de escritores brasileiros: “Tabule Jorge Medauar”, “Peixe assado com batatas e romero Aninha Franco”, “Vatapá Gregório de Mattos” etc. Neste verao terrivelmente quente no balneário andaluz de Tarifa, convidaram-me para cozinhar nos finais de semana no La Sacrístia, hotel-restaurante sofisticado frequentado por milionários, artistas, nobres e turistas enlouquecidos. Topei a parada, apostando na renovaçao como alegria de viver, atirando-me no desconhecido de coraçao aberto e com certa experiência. No primeiro jantar, tivemos como degustadores uma condessa vasca, um príncipe hindu, uma apresentadora de televisao, alguns jornalistas do Harper’s Bazar Magazine e a rica brasileira Penny Shorto, que vive em Marbella. Puta responsalidade que nao me intimidou. Na cozinha, entre ervas, azeites, peixes frescos e intermináveis panelas, divirto-me, intenso como a Babette de Isak Dinesen. Esta semana fiz gazpacho e e frango ao forno com limao e gengibre esgotou-se num piscar de olhos. Antes de começar a cozinhar na minha existência basicamente nômada, já me sentia atraído pelas histórias que falam de comida, melhor dizendo, pelas histórias em que os personagens páram para comer e passam um tempo na cozinha ou reunidos em torno de uma mesa. A comida realça a realidade da ficçao, sua simples mençao humaniza uma história. Como esquecer os magníficos banquetes das novelas de Balzac, os frutos secos e raízes comidos pelo monstro Frankenstein, a compota de anêmona preparada pelo Capitao Nemo ou o “pao, arroz, três queijos holandeses, cinco peças de carne seca de cabra e milho” que Robinson Crusoé resgata de um naufrágio? Quase todos os escritores, em algum momento da narrativa, mencionam os alimentos que comem seus protagonistas, embora muitas vezes seja de forma apressada. Colette, Jorge Amado e Georges Simenon nos deixaram receitas em suas novelas que dao água na boca. Don Quixote come ovos, pimentoes picados e bacon todos os sábados; Kim, de Rudyard Kipling, curry com verduras; e Sherlock Holmes, uma torta de patê de foie gras. Gosto de me identificar com os livros que estou lendo, transformar-me de alguma maneira no personagem cuja vida seguimos nas páginas. Em Paris, li todo um capítulo sobre Quasímodo numa das torres da Notre Dame; folheava em praças e parques londrinos “Mrs. Dalloway”, de Virgínia Woolf. Claro que é difícil empreender as mesmas viagens de Gulliver, as aventuras de Simbad ou apaixonar-se perdidamente como Anna Karenina, porém nao há nenhuma dificuldade em provar o que eles comem. E assim, cozinhando, me aproximo ainda mais dos livros. Nesse momento, ao escrever “Las Cosas de Gitano Duran Poco”, persigo receitas e cardápios de restaurantes para elaborar pratos para dois ou três personagens. No bosque La Selva, o imigrante Lubiao e o cigano José Navarra comem sanduíches de pimentoes verdes assados, jamón serrano, cogumelos e morcilla, uma linguiça de sangue de porco. Longe de qualquer futilidade, toda comida é em essência uma prova de nossa humanidade. Sua elaboraçao, tendo como justificativa o paladar e a estética, pode levar-nos com sorte a manjares imaginativos e audazes. É o que venho tentando fazer nos últimos finais de semana, seguindo radiante pela trilha de dias serenos e novas descobertas para uma melhor qualidade de vida. Nao quer provar a minha salada de polvo, meu caro leitor? Ou prefere peito de peru ao abacaxi?

IX. O SEXO DOS ANJOS

Nunca deitei com parócos. A devassidao carnal nao chega a tanto. A experiência mais próxima, se pode chamar-se experiência, aos treze anos, resultou de simples convite do astuto vizinho pouco mais velho. Tímido, disposto a qualquer novidade que me libertasse da tirana adolescência solitária, de livros e filmes na tevê, topei ir a uma festa de “embalo” sem avisar meus pais. Durante vários dias, o conhecido repetiu sem detalhes: “Será uma loucura!”. Nao conseguia ter idéia concreta da tal “loucura”, mas pouco me importava o gênero do “objeto desejado”, queria botar o meu bloco na rua. Ao chegar a residência destinada à festa, trajado como comportado garotinho-classe-média-alta, caiam as primeiras sombras do final da tarde de sábado. A porta abriu-se pela mao esquerda de um cura. Eu o reconheci: era o chefe espiritual da paróquia frequentada por minha avó paterna. Sorrindo maliciosamente, equilibrava na mesma mao esquerda um copo de líquido vermelho que nao identifiquei, pois desconhecia bebidas, apenas experimentara alguns vinhos baratos, Sangue de Boi, Capelinha, essas coisas que minam a cabeça no dia seguinte. Seguimos para o grande e belo pátio banhado pelo entardecer, e inesperadamente encontrei-me entre uma dezena de meninos de idade próxima a minha, talvez um pouco mais novos ou um pouco mais velhos. Brincavam pelados, entrando e saindo na piscina de plástico azul-céu. Indiferente a algazarra, um pastor alemao gordo, de olhos abertos, acomodava-se no tapete puído. Talvez desprezasse o ridículo geral. Quatro homens adultos conversavam ao lado da pequena geladeira, tomando cervejas. Ouvindo Angela Rô-Rô em tom suave, aceitei o guaraná Antártica, sentando-me na cadeira rococó, de ferro, como num trono, folheando sem graça a revista de fofocas com o ator Lauro Corona na capa. O vizinho arrancou totalmente a roupa, correndo para a água. Molhado, chamou-me. Nada respondi, dei meia volta e regressei para os braços familiares, assintindo “Água Viva” com mama e os quatro irmaos, enquanto papai lia O Globo. Nunca conversei com o vizinho, ou com quem quer que seja, sobre o ordinário assunto e poucos meses depois, na mata, preparando armadilhas para pássaros, ele disse-me: “O seminário de Ilhéus fechou as portas, expulsando seus dezoito seminaristas. Eles faziam verdadeiras orgias nos finais de semana. Estive lá duas vezes. Jóia…Sempre voltava carregado de tanto beber cuba-libre”. Horas atrás, no Hyde Park de Londres, encontrei um querido amigo que nao via há seis anos. Em determinado momento conversamos sobre o mais recente filme de Almodóvar, “La Mala Educación”. Encantado com a audácia do diretor espanhol, assistiu a obra três vezes; eu, mesmo ressaltando certas qualidades, insisti em afirmar que nao me provocou emoçao. Tem como virtudes ser superior ao chato “Fale com Ela”, contar com carismática participaçao de Javier Câmara e uma ou outra boa cena da infância do protagonista no internato católico. O filme levou o divertido e frágil amigo a recordar férias em Roma no ano passado, garantindo ser um prato cheio para crônica ou conto. Hospedou-se no primeiro andar de pousada centenária, e da sacada via a lateral de explêndida igreja, formoso pomar e um sobrado de pedra. O quarto ficava em frente a uma das grandes janelas do sobrado, também no primeiro andar. Fumando Golden Virginia e admirando a paisagem, enxergou o moreno de olhos verdes levantando-se de cueca, lavando o rosto, escovando os dentes, orando e, por fim, vestindo a negra batina. Completamente vestido, inclusive com a Bíblia presa debaixo do braço, o padre viu-o, nao demonstrando qualquer reaçao aparente. Olharam-se por segundos. Nos dias seguintes estudou os regulares hábitos do religioso, sabendo com exatidao a hora do despertar, da oraçao, do ritual cotidiano. Como representaçao cômica muda, continuaram contemplando-se um ao outro, sérios, no instante final. Na segunda semana repetiu no próprio quarto e a mesma hora, os movimentos habilmente estudados do outro, só que nu, numa mímica perfecionista ao vestir a imaginária batina, e o guia gay Spartacus como bíblia. Miravam-se, e o rosto do italiano, quadrado e atraente como o de Gianni Garko, sem expressao, nao movia um músculo. Procurou-o na paróquia, atuando no confessionário como inocente perturbado pelo desejo: confessou sobre a janela indiscreta, sobre o prazer de ver despertar o “desconhecido” sem nome. Finalizado o curto silêncio, ouviu a voz cálida, sem rosto, perguntar: “O que veste todos os dias esse ser que admira?”. “É um padre”, respondeu sem vacilar. “Os padres sao como os anjos, nao possuem sexo”. “Vivendo e aprendendo”, ironizou o pícaro amigo. “Me chamo Paolo. Padre Paolo. Reze pela salvaçao dos pecadores. Reze o que tiver vontade e quantas vezes acredite ser necessário”. Calou-se, nada mais disse, e tampouco saiu do confessionário. Na pousada, o jovem apaixonado elaborou estratégias fantasiosas, e nos dias seguintes, mesmo sofrendo com a janela mágica fechada, continuou a imitaçao, desta vez sem a matriz. Faltando poucas horas para partir de volta a Londres, enquanto arrumava malas, a janela fetiche abriu-se em silêncio. O homem de Deus, clone de Sao Sebastiao flechado, nu e de olhos fechados, masturbava-se tomado pela luxúria e dor. Perplexo, acompanhou a exibiçao inusitada como quem sonha, nao conseguindo mover nenhuma parte do corpo. Ao perceber o gozo, despertou do transe, abriu rápido a porta do quarto, desceu as escadas de madeira, atravessou a rua deserta e bateu com a argola de aço contra a alta e potente porta do sobrado. Repetiu o toque rígido muitas vezes. Chamou-o. A porta continuou fechada no seu segredo, e assim termina o ousado relato. O celibato, como está cansado de saber, meu caro leitor, é tema polêmico que desperta interesse em vários escritores e jornalistas. Eça de Queiróz, em “O Crime do Padre Amaro”, é um dos que aborda sensivelmente a questao. Por três vezes escrevi sobre ela: na novela policial “O Coraçao Deserto”; na peça teatral “Amásia”; e também na crônica “Os Pecados de Todos Nós”, rejeitada silenciosamente por algumas publicaçoes, ao contrário de todas as outras da série “Se um Viajante Numa Espanha de Lorca”. Resignado, aceitei o silêncio geral em torno da crônica punida pela caretice. O que poderia fazer? Escrever nova crônica falando de padres versus sexo. Porém, deixo o aviso: os “católicos servos de Deus” nao tomam os meus dias e noites, nao sao obsessao ou tara. Para ir mais longe, considero-os criaturas aborrecidas, me identifico mais com rezadores, pais-de-santo, budistas, profetas, alquimistas, templários, xamas, hari-krishnas, sei lá. Sou do tipo que medita em voz alta com oraçoes de Saint German, mantras budistas, parábolas sufis e salmos bíblicos, frequentando igrejas por curiosidade arquitetônica ou histórica. Essa é outra história. Fica para a próxima, meu paciente leitor.

X. ACONTECEU EM VÊNUS

Este é um tempo de medíocres. Optamos por uma máxima nao escrita, a que diz que tudo já foi feito e qualquer tentativa de algo novo é, portanto, inútil. A Terra continua sendo explorada até seus confins, o espaço exterior está fora do nosso alcance (a nao ser que paguemos a passagem) e o oceano profundo nao vale a pena, tampouco o infinito Universo: para que cansar-se, existindo o Discovery Channel? O capitalismo é péssimo, porém é o que se vende para todos. Pobres haverá sempre, como disse Cristo, embora nao falasse para oferecer uma desculpa. Sair às ruas nao é recomendável nesta era de terrorismo e violência urbana. Por exemplo, a troca constante de tiros entre policiais e traficantes, nos morros do Rio de Janeiro, é assustadora. Para evitar esse tipo de infortúnio existe Internet. Aquele que anseie alguma forma de experiência limite, que se inscreva em um reality show. E os artistas, que sejam fotografados e comentados entre as sobras dos grandes do passado. Nenhum escultor superará Michelangelo. Nenhuma atriz de cinema repitirá a luminosidade de Marlene Dietrich. Nenhum brasileiro escreverá um romance melhor que “Grande Sertao: Veredas”. Porém, claro, existem possibilidades formosas de momentos mágicos, em que o mundo e as pessoas parecem sensatos, criativos e até solidários. O verao europeu, ou melhor, qualquer espécie de férias em todos os lugares, é propício para a felicidade. É revigorante ver rostos belos de diversos países em um mesmo espaço. Parece que Dionísio deixou o exílio e faz a festa acompanhado por um cortejo de Sátiros, Silenos e Bacantes. Os estrangeiros nunca adivinham que sou brasileiro, sempre acham que sou árabe ou cubano, como se fossem a mesma coisa. Em algumas situaçoes sinto-me exótico como a Sofia Loren em Hollywood, mesmo nao tendo os seus olhos verdes. Visto batas brancas, verdes e violetas; pinto os olhos de henna como os gregos ou os mouros, uso brincos ciganos de prata e converso em outros idiomas sem evitar o sotaque baiano. Estou em Pella, ao norte da Grécia, escrevendo na cabine de uma furgoneta azul-turquesa chamada Vênus. Sam, o meu amigo ruivo neo-zelandez, prepara a tortilla numa churrasqueira ao lado do jardim de oliveiras. Ele nasceu numa fazenda de gado e agora corre mundo. Logo irá para Ibiza e eu mudo-me para Chechaouén, no Marrocos. É um desses encontros cúmplices e fugazes tao comuns nos veroes. Durante o dia o sol brilhou com força e as rodovias estavam vazias. Agora é noite, e as Persêidas ou “As lágrimas de San Lorenzo”, uma chuva de meteoritos que acontece nessa época do ano, acende o céu em milhares de pontos de luz. É o momento certo e exato para contatos do Terceiro Grau. Se eles sabem que eu sei que sou observado por que nao se aproximam? Creio que tenho visto demais a filmes de ficçao-científica. É o meu gênero cinematográfico favorito. Um cao magro brinca com um pedaço de pau, enquanto leio sobre a morte de Bernard Levin, um dos comentaristas mais brilhantes do jornalismo britânico. Extravagante e contraditório, insolente e as mesmo tempo inseguro, Levin era muito mais odiado que admirado. Na tevê, usava a técnica da agressividade intelectual para amedrontar a seus entrevistados, desvendando suas verdades. Nao era superficial e vaidoso como o Jô Soares. Foi cuspido em público no intervalo de uma representaçao teatral e um entrevistado partiu a sua cara ao vivo por uma crítica especialmente cruel com sua mulher. É da turma da escrita culta e afiada como uma lámina, que inclue, entre outros, a Ring Larder Jr., Budd Schulberg, H. L. Mencken, Dorothy Parker, Gore Vidal, Tom Wolfe ou os brasileiros Paulo Francis e Sérgio Augusto. Seus desafortunados imitadores chovem aos montes, e no nosso país Diogo Mainardi é a atual versao Frankenstein. De um só gole viro a taça cheia de vinho dos deuses, homenageando Levin com o batismo simbólico de um dos meteoritos com o seu nome. Pella é a terra natal de Alexandre Magno, o Grande. Convivi intimamente com ele, lendo uma série de livros sobre a sua vida, sendo o último deles, o fabuloso “O Garoto Persa /The Persian Boy” ( 1972), de Mary Renault. Plutarco conta que o nascimento de Alexandre foi precedido por visoes e prodígios. Teve lugar no mês de Hecatombeón, que os antigos macedônios chamavam Loo e nós agosto, e coincidiu com aquele incêndio que destruiu o famoso templo da deusa Artemís, em Éfeso, uma das sete mravilhas do mundo antigo. Num pequeno museu local admirei uma cabeça de Alexandre representado como um jovem efebo. Falta o nariz, porém é idêntica a dezenas de outras que vi em museus e publicaçoes. Alexandre foi um dos primeiros a se preocupar com sua imagem pública, o usual marketing político que hoje é responsável por grandes saques nos cofres públicos. Teve seus próprios escultores e pintores de corte, que reproduziram sempre o mesmo retrato. Nao mostra a um homem, e sim a um ideal, um deus. Nunca conheceremos sua aparência real, nem sequer aqui, no lugar que nasceu. Colin Farrell acabou de interpretar o herói no filme que o polêmico Oliver Stone prepara. Quando perguntado se os amores homossexuais do bravo conquistador seriam abordados na história, respondeu: “Como pano de fundo, discretamente. A sexualidade de Alexandre nao é fundamental para o nosso filme”. Como assim? Desde quando a sexualidade de um protagonista nao é importante para o cinema norte-americano? Caso fosse mais uma das dezenas de versoes da vida de Cleópatra, ela daria para Júlio César e morreria de amor por Marco Antônio. O recinto arqueológico de Pella, situado numa regiao sagrada e onde se coroavam e enterravam reis, está contaminado por abomináveis turistas, desses que levam os filhotes em carrinhos, comem sanduíches sintéticos e visitam monumentos sem nem mesmo saber quem foi Bucéfalo. Além disso, as ruínas nao sao nada extraordinárias, e do que um dia foi uma grande cidade, restam somente umas poucas colunas em pé. Porém estar na furgoneta Vênus admirando estrelas cadentes na penumbra, comendo tortilla de batatas e pensando no jovem que se lançou a conquista do mundo e a uma vida apaixonada de apenas 32 anos, é admirável e revigorante. O próprio ar vibra com o poder da imaginaçao. Sei que vivo o sonho de uma noite de verao. No céu, as velozes Persêidas sao flechas de fogo desenhando uma luminosa trajetória de poucos segundos. Entre 20 de julho e 20 de agosto, quando a Terra cruza a órbita do cometa Swift-Tuttle e suas partículas entram na atmosfera terrestre, essas populares estrelas cadentes da constelaçao de Perseu podem aparecer em qualquer lugar e em toda parte. O melhor lugar para observá-las é qualquer lugar, quando mais escuro melhor, algo assim como Vênus depois que apago a lanterna. É um assombroso espetáculo de luz e cor! Portanto, meu caro leitor, nao seria melhor desligar o computador e ir para o campo, as montanhas, uma praia deserta ou a Chapada Diamantina?

XI. POR ACIDENTE

Estou em Ibiza por dois dias para uma entrevista com Polanski. Nao é nada mau. É um desses lugares alucinantes que atrae freaks, milionários, celebridades, putas, suculentos corpos de academia, rebeldia sintética, maricóns e todas as tentaçoes do mundo. O diretor do asfixiante “O Bebê de Rosemary” me recebeu no início da tarde do segundo dia. O cenário é cinematográfico: no alto de uma colina, uma paradisíaca residência protegida por pinheiros e com vista para o mar Mediterrâneo. A decoraçao luxuosa tem toques orientais e mexicanos. Sento numa poltrona macia, aceito o suco de pêssego e durante segundos, emocionado, uso a técnica do auto-controle para iniciar racionalmente a conversa. Depois de apertar a minha mao, o polaco acende o grosso charuto cubano. Da varanda, vejo sua mulher, a atriz francesa Emmanuelle Seigner, deitada no branco sofá lendo um best-seller, indiferente a todos. A filha Morgane brinca na piscina e o mais novo, Elvis, recebe a proteçao da babá. De sunga minúscula, camiseta azul, descalço, olhos pequenos e irônicos, Roman Polanski fala durante duas horas sobre sua vida e sua carreira. Sua história intensa e extraordinária é marcada por cruéis experiências: a mae morreu em um campo de concentraçao, passou a infância no gueto judeu de Cracóvia, teve a bela esposa Sharon Tate e o filho a ponto de nascer assassinados por um fanático religioso, foi acusado de manter relaçoes sexuais com uma menor na casa de Jack Nicholson, expulso dos Estados Unidos e outros turbulentos acontecimentos. Quando todos pensavam que estava criativamente acabado lançou o bombástico e sensível “O Pianista”. Deixo a residência com o coraçao saltando pela boca. Nao detectei nenhum sinal de um homem que cultua o diabólico, como a mídia faz crer. Tudo em harmonia, agradável; e Polanski é uma figura autêntica. Sigo para um chiringuito na praia, encontrando amigos. Um deles vem inesperadamente com essa: “De qué se trata? Antonio Banderas lo tiene grande; Brad Pitt lo tiene pequeño; Madonna no tiene y el Papa nunca usa el suyo”. Todos caem na gargalhada. Amolecido pelo sol forte e os coquetéis de vodka com frutas, fecho os olhos, estirando-me na areia, e martelo na cabeça o trecho “Brad Pitt lo tiene pequeño”. Certa vez, sem nenhum estudo científico, apenas usando a intuiçao e a percepçao, escrevi sobre os problemas emocionais que podem causar a posse de um pau pequeno, e ainda hoje, uma década depois, continuo acreditando que um orgao minúsculo é algo que provoca frustraçao, fundamentando a lúbrica teoria nas estátuas de deuses gregos com pênis infantis. É como uma censura, uma falha dos deuses ou uma obra inacabada de um escultor. Quando Brad Pitt foi flagrado pelado, em um iate, por paparazzis, milhares de machos respiraram aliviados, o big símbolo sexual era imperfeito, “santo de pés de barro”. No hilário e informativo “The Penis Book”, de Joseph Cohen, lido no hall de uma pousada lotada, o autor ensina, entre outras coisas, que o tamanho do pau depende em grande parte da genética, nao do tamanho dos pés, das maos ou do nariz como muita gente segue à risca; diz que entre os 15 e 60 anos um homem ejacula de 34 a 56 litros de sêmen, que contém de 350 a 500 mil milhoes de células de esperma. Pirei ao saber que os eunucos da corte imperial china quase sempre levavam seus testículos em frascos que exibiam em volta do pescoço. Os testículos sao bolas de fogo; sao os cojones, pelotas e huevos dos espanhóis e o nosso saco de cada dia. É difícil imaginar que uma coisa menor que um abacaxi possa ser a causa de tantas sensaçoes, aventuras, negócios de telefones eróticos, revistas pornôs, visitas ao psiquiatra, bebês, noites de insônia, mentiras, crimes e tantos bons momentos. Keith Haring em 1989 pìntou uma série de paus no banheiro do Centro de Serviços da Comunidade de Gays e Lésbicas de Nova York. O filme “Intimidade”, de Patrice Chéreau, provocou escândalo com o fellatio do casal protagonista. A felaçao, do latino fellare, mamar, está sempre na moda porque é um conceito muito simples e satisfatório: somente se necessita uma boca e um peru. Se pode praticá-lo num carro estacionado – em movimento é arriscado, foi assim que morreu entalado o diretor do clássico expressionista “Nosferatu”, o alemao Murnau – ou na cama com a dupla dando-se prazer utilizando o consagrado 69. Fiquei realmente louco ao ser chupado enquanto estava sentado em uma poltrona de um cinema londrino. Alguns homens inclusive gostam que, enquanto rola a sacanagem oral, que apertem os seus testículos ou que um dedo explore o seu ânus. O termo chupada é forte, quase baixaria verbal. Seria uma palavra-pornô? Um insulto? Nao sei porque, porém resultava mais poético quando os antigos gregos chamavam de “tocar a flauta”. Ou quando os escribas do Kama Sutra o denominam ambarchusi, “lamber uma manga”. Mas por que esse ensaio sobre o sexo masculino? Perdoe-me, caro leitor, é que escrevo sem tabus. Deveria estar remoendo os demônios de Roman Polanski. As variaçoes sobre o orgao sexual masculino surgiu acidentalmente. Talvez em consequência do sol, das piadas, dos drinques, da libertina Ibiza…É hora de partir. Antes de despedir-me, o amigo cômico conta mais uma das suas: “Dios nos dio un pene y un cerebro, pero sólo nos dio sangre suficiente como para que funcionaran de uno a uno”. E assim está escrito.

XII. A MORTE DE UM AMOR NAO É MENOS TRISTE QUE A MORTE

Aqui onde trabalho, ou melhor, do lado de fora de minha janela, as andorinhas voam em revoada, o Estreito de Gibraltar afunila um vento furioso, Tânger se oculta na névoa e belas andaluzas vestidas de cigana caminham em direção a festa da Virgem de la Luz. Gosto desse lugar de gente ingênua e caipira, esta espécie de aldeia, que na noite é povoada por adolescentes bêbados e fumadores de haxixe; gosto das vozes altas e das canções melodramáticas, da loja dos marroquinos, cheia de inutilidades delicadas, das frutas silvestres, das viúvas de negro, da nuvem de fumaça de cigarros em todos os bares, do céu transparente coberto de estrelas cintilantes, das ruas apertadas e centenárias. Não gosto das gaivotas – que me parecem ratos com asas -, das crianças histéricas e dos turistas estúpidos ávidos por prazer. Aqui onde trabalho, meu caro leitor, vejo um pequeno restaurante com a televisão ligada em um canal esportivo, o garçom bonito atravessando o salão com uma paelha, a cozinheira sul-americana abanando-se com leque bordado com flores douradas e em um jornal no balcão, a manchete da vitória de um toureiro, El Cordobès. Nesta minha caverna de papéis, revistas, cedês, fotografias e velhos filmes, recupero-me da morte de um amor pensado para toda a vida. Não estou triste, já não sei ficar triste, sempre encontro boas razoes para continuar acreditando na vida, porém o funeral de um amor é de um vazio inconsolável. Uma idosa cigana, Lola, que me deu um curso sobre cartas de adivinhação, sugere que eu faça a pé os 110 Kms. do Caminho de Santiago. Jura que voltarei recuperado, de coração aberto, pronto para outro relacionamento intenso. Estive duas vezes nessa cidade galega, embora nunca tenha feito a caminhada, e na primeira delas, em 1995, creio, encontrei a nossa telúrica Baby Consuelo e a atriz Shirley MacLaine. Não me vejo como peregrino, minha fé não é suficiente. O Caminho de Santiago é “a Santiago”, pois hoje é uma via que conduz a uma só direção, a um único destino, incômoda para quem crê que o relativo é absoluto, que a vida não tem destino, sentido ou transcendência. O Caminho de Santiago é uma flecha, amarela de luz de sol de dia e prateada de luz de estrelas de noite. Uma trilha até a cova da morte. É procurar ao sepulcro. A modernidade fabricou gente otimista que não crê no passado e confia no futuro, que entende que a vida é um fugaz equilíbrio sobre o abismo do nada, porém ainda existem esses “pés-na-estrada” torturando seus corpos: vão render fidelidade a uma tumba. Uma tumba é o passado, porém também o futuro. Gente de países industrializados que voltam a fazer a velhíssima descida ao Hades grego, ao País celta dos mortos. Que veneram a um decapitado milagroso que promete vida além da morte; ressurreição. As religiões tentam racionalizar-se para aproximar-se ao nosso tempo. Não sabem já muito bem que fazer com o mistério, esse campo do sobrenatural, pois ninguém crê em milagres e os sacerdotes menos que ninguém. Porém agora estão no Caminho muitas pessoas que perderam a religião de seus antepassados, que não sabem dizer o que buscam, e ainda tivessem palavras nada falariam pois se envergonham de reconhecer que buscam ritualidade, transcendência e sentido, que buscam contato com algum Todo. Que buscam religião, em suma. O Caminho é hoje muitas coisas, antes de mais nada turismo. Um turismo banal e banalizado, barato. Turismo massivo, vulgar, nervoso e um tanto brutal que fere o sentido da peregrinação; qualquer sentido que esta tenha. Também turismo cultural que une o lazer, com a moda ecológica e com a curiosidade histórica e artística. É também uma via interior que podemos chamar terapêutica. Permite a quem peregrina centrar sua cabeça enlouquecida, reconstruir seu interior e fazer um exame de sua vida, uma análise. Embora quem se entrega ao Caminho fará uma viagem mais transcendente, pois ele não só tira a gente de sua vida bizarra fazendo-a descansar de si mesmo, como também leva a um plano mítico. O Caminho tem uma finalidade oculta: quem avança encontra tanto pousadas acolhedoras como rios, montanhas, bosques e labirintos. É um desenho com forma de sistema arterial que rega a velha e a nova Europa e que tem seu motor, com forma de coração, na velha cidade que rodeia a tumba. Quem segue esse desenho, tendo fé religiosa ou sem ela, terá uma verdadeira experiência. Existem coisas impossíveis de se discutir, porque não podem ser ditas em linguagem verbal. Existem coisas que só se podem experimentar. Muitos amigos queridos fizeram o Caminho, e noto que não sabem verbalizar sensatamente o ato, mas o brilho do olhar de cada um deles diz tudo. O caso mais hilário e surpreendente é o de uma amiga mineira, Daniela, que incapaz de deixar de lado sua vaidade necessária, fez todo o trajeto de saltos plataforma. Belíssima, como poucas mulheres nesse mundo de belezas sintéticas, enfrentou sozinha noites e dias sem qualquer receio, e a “loucura” tocou o seu coração e o seu espírito. A maior parte das pessoas que fizeram o Caminho experimentam vivências que não tem palavras, pois os contemporâneos, ou se prefere os agnósticos, não encontram palavras para falar o extraordinário, o próximo ao milagre. Vivências que tem a ver com a elaboração de nosso mundo interno e também com a experiência de que o mundo está vivo e de que nós estamos dentro dele e lhe pertencemos. Uma experiência de entrega. E também de dissolução e morte. A Igreja católica-romana tutela o Caminho e diz que é um símbolo de fé, porém na realidade desconfia dele, pois tampouco sabe o que fazer com o místico e desconfia dessa religiosidade silvestre que não é de ninguém, não tem dono. Porque a Igreja administra o dogma porém o mistério é selvagem e obscuro e só podem espreitá-lo os místicos, embora sejam figuras malvistas que nem sequer tem dogma ou confissão. Porém tem os pés na estrada, e um destino. O Caminho é uma via iniciática que se atualizou (inclusive com a ajuda de Paulo Coelho e o seu popular “Diário de um Mago”) e volta a entrar na cultura européia. Há apenas 20 anos, a tradição das peregrinações a Santiago parecia destinada a uma decadência sem remédio. Em 1984, não se entregou mais que 260 “compostelas”, o documento que prova a caminhada de ao menos 100 quilômetros por “promessa, piedade ou devoção” que já recebiam os caminhantes da Idade Média. Ao terminar este ano se espera entregar 150.000 “compostelas”. É um mito que supera a tecnologia, levando a valores, convicções e referências simbólicas de outros tempos. O Caminho, acreditando nele ou não, une o passado e o presente, o metafísico e o racional. Aqui onde trabalho, ouvindo neste momento o trote compassado de um cavalo e vendo roupas coloridas penduradas em varais externos, penso que seguir a trilha de um amor que morreu é demasiado penoso, e não me vejo buscando o “renascimento” no Caminho de Santiago, o meu caminho são as palavras escritas, palavras que falam da perplexidade humana diante do vazio e da solidão de todos nós. Qual o seu caminho, meu caro leitor?

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